As plateias estão ficando burras

É urgente: precisamos educar as plateias. Não adianta falar de incentivo a cultura no Brasil enquanto não soubermos nos portar como apreciadores de arte.

Nos teatros, no cinemas, nos museus, nas bibliotecas: vemos muitos consumidores e pouco público. Vemos pessoas que se comportam acima de qualquer regulamento, acima do bom senso e das normas da boa convivência.

Observamos isso de diversas formas: fotografias com flash, onde não é permitido o uso do flash; máquinas fotográficas no modo sonoro fazendo um barulho que atrapalha qualquer concentração; conversas insistentes durante apresentações musicais; celulares que tocam ou que, pior, são atendidos; crianças muito pequenas em apresentações adultas; livros de biblioteca rabiscados… (coloque aqui a sua reclamação).

Não consigo considerar a plateia como total responsável por isso. Não é possível cobrar que alguém se comporte de certa maneia sem o ter ensinado antes.

Infelizmente, a maioria não teve oportunidade de aprender a ser plateia. Alguns sortudos talvez tenham frequentado uma boa escola de música ou tiveram professores e pais preocupados em lhes apresentar esse mundo das boas maneiras artísticas.

Pobres de nós, a maioria, educados a ser audiência pela televisão e pelo rádio ou a ser torcida nas arquibancadas de futebol. Nós, que corremos o risco de sermos constrangidos, talvez educados, pelo “shiiiii” das salas de audição. O “shiiiii” que mais atrapalha do que ensina.

O “shiiiii” que é o último recurso desesperado do apreciador de arte.

É preciso educar as plateias. É preciso que a escola assuma o que é sua obrigação.

Só descobri para que serve a disciplina de “Educação Artística” muitos anos depois de sair da escola. Não, ela não serve para formar artistas – até porque fazer meia dúzia de desenhos livres durante alguns anos não vai tornar ninguém um artista. Ela serve, principalmente, para formar apreciadores de arte. Pessoas que saibam saborear arte, talvez, criticar arte. Sem publico não há artista.

Ir a uma apresentação artística e se deparar com uma plateia não educada, é submeter-se a uma sessão de stress ao invés de beleza.

E, ao final de cada apresentação, saio sempre com a mesma certeza: precisamos educar as plateias.

Postado em Artes e design.

Sobre o autor

Marcela Ortolan

Andarilha convicta, leitora apaixonada, behaviorista radical. Acredita que o mundo é grande demais para que apenas uma arte tenha o seu monopólio.

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