As leis sempre serão uma pálida sombra daquilo que se entende por necessidade ética e, não bastasse, sempre de uma sociedade do passado.

As leis são necessárias, sem dúvida, porque não somos inteligentes o suficiente para entendermos o mundo segundo uma perspectiva de conjunto, de rede. E esses textos organizados em artigos e parágrafos tentam conjugar as necessidades de um e outro grupo, nunca com completo sucesso. Por outro lado, nossa vista vai no máximo até o nós – quando não fica no eu somente numa ótica meramente individualista – e não consegue ir até o eles, os outros, sempre tão diferentes.

Vejamos o que diz Henry David Thoreau em seu livro A Desobediência Civil:

A única obrigação que tenho direito de assumir é fazer a qualquer momento aquilo que julgo certo. Costuma-se dizer, e com toda a razão, que uma corporação não tem consciência; mas uma corporação de homens conscienciosos é uma corporação com consciência. A lei nunca fez os homens sequer um pouco mais justos; e o respeito reverente pela lei tem levado até mesmo os bem-intencionados a agir quotidianamente como mensageiros da injustiça. Um resultado comum e natural de um respeito indevido pela lei é a visão de uma coluna de soldados – coronel, capitão, cabos, combatentes e outros – marchando para a guerra numa ordem impecável, cruzando morros e vales, contra a sua vontade, e como sempre contra o seu senso comum e a sua consciência; por isso essa marcha é muito pesada e faz o coração bater forte. Eles sabem perfeitamente que estão envolvidos numa iniciativa maldita; eles têm tendências pacíficas. O que são eles, então? Chegarão a ser homens? Ou pequenos fortes e paióis móveis, a serviço de algum inescrupuloso detentor do poder? É só visitar o Estaleiro Naval e contemplar um fuzileiro: eis aí o tipo de homem que um governo norte-americano é capaz de fabricar – ou transformar com a sua magia negra -, uma sombra pálida, uma vaga recordação da condição humana, um cadáver de pé e vivo que, no entanto, se poderia considerar enterrado sob armas com acompanhamento fúnebre, embora possa acontecer que

“Nem um rufar se ouviu
nem um silente toque,
enquanto seu corpo à
muralha levamos.
Nem um soldado disparou
seu tiro de adeus
sobre o túmulo onde nosso
herói nós enterramos”.

Ao ouvir uma palestra como a de Augusto de Franco, no TEDx Curitiba, neste sábado (16/07/2011), em que ele diz DESOBEDEÇA, lembro que ele, assim como Thoreau não está pregando a desordem, mas a busca por uma inteligência que saiba conhecer e entender leis maiores e que não podem ser escritas.

Não lembro quem disse essa frase: algumas das pessoas que foram os executores das mais terríveis atrocidades estavam apenas cumprindo ordens.

É verdade.

É preciso sabedoria para saber quando as leis devem ser mudadas ou quebradas. Frequentemente, uma lei já nasce atrasada. E, quando mudada, diante da necessidade, continua aquém do seu tempo. E quem as quebra, mesmo sob o escudo da Ética, sofre as consequências desse ato.

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Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!