Num verão daqueles de fazer ovo suar, um conhecido meu trabalhava em um jornal de circulação nacional em uma das sucursais do interior. Era uma cidade não tão pequena, que assim podia se dar ao luxo de ter um caderno local.
Numa das reuniões de pauta, um sabichão disse ter visto algumas pessoas se refrescando na caçamba de uma picape. Jogaram uma lona impermeável sobre ela, encheram de água e ficaram lá com seus patos de borracha, bóias ao som de alguma música de qualidade duvidosa enquanto o sol esturricava o asfalto.
Só a possibilidade de uma foto dessas já valeu o entusiasmo do editor-chefe local como uma boa forma de retratar a onda de calor histórica. Os jornais sempre dão um jeito de fazer com que qualquer onda de calor seja históricas.
Uma equipe foi designada para fotografar todas as picapes-piscinas que surgissem para registrar assim a nova moda para enfrentar o calor.
Mas nada. Ao que parece, o sabichão que se manifestou na reunião de pauta tinha visto um caso único ou então tinha inventado aquilo. O ímpeto jornalístico, no entanto, fez com que todos ali vislumbrassem uma nova geração de piscinas móveis e banhistas automotivos que uniam a diversão à locomoção.
O fechamento da edição de fim de semana estava chegando e nada de fotografia. Foi então que alguém decidiu alugar uma picape, contratar alguns modelos e comprar uma lona impermeável. A foto foi então montada e, domingo, estava nas bancas com um belo texto falando da onda de calor e da nova moda.
Moda que, a julgar pelos resultados das equipes que saíram à cata de picapes-piscina, não existia.
O resultado dessa notícia fabricada foi que no fim de semana seguinte o que mais se via na cidade eram picapes com lonas impermeáveis na caçamba cheia de água e pessoas se refrescando por ali ao som de alguma música de baixa qualidade.
Essa história só demonstra o poder que a imprensa e os meios de comunicação em geral têm de criar realidade.
Um de meus livros preferidos, Ilusões Perdidas, de Honoré de Balzac, traz uma análise em forma de romance do nascimento dessa capacidade. Nele, em 1820, um escritor, ainda ingênuo mas dotado de algum talento, viaja a Paris e lá toma contato com a então nascente imprensa como a conhecemos.
Um dos momentos mais marcantes é quando um jornalista mais velho e matreiro ensina ao jovem como escrever – sobre um mesmo livro – uma crítica negativa, uma crítica neutra e uma crítica positiva. Qual ele vai publicar, dependerá do interesse. Chega a ser engraçado. Naturalmente, Balzac estava além de seu tempo para já naquela época perceber as possibilidades do meio que, então, apenas iniciava sua consolidação no século XIX.
Diz um dos personagens:
Você liga então importância às coisas que escreve? – perguntou-lhe Vernou com ar de zombaria. – Mas nós somos negociantes de frases e vivemos de nosso comércio. Quando você quiser fazer uma grande e bela obra, um livro, enfim, poderá colocar nele os seus pensamentos, sua alma, amá-lo, defendê-lo; mas artigos, lidos hoje e amanhã esquecidos, esses não valem a meus olhos senão aquilo que por eles nos pagam.
O escritor, professor e compositor José Miguel Wisnik, faz uma bela análise – simples e acessível – desse livro sob tal perspectiva num dos vídeos sobre ética lançados há cerca de 10 anos pela TV Cultura. Só a palestra de Wisnik já vale a compra do pacote inteiro que, por sinal, não está muito caro.
Ele basicamente coloca a imprensa – e devemos incluir aí rádio, tevê, internet e papel – como uma janela da realidade. Ela é um recorte do todo apenas. Não o todo. Mas a partir do momento em que o leitor observa por essa janela, a paisagem passa a ser a verdade, a ilusão de uma suposta totalidade.
Isto é: se está escrito, deve ser verdade. Acredito, no entanto, que essa forma de verdade, como acontece com todas as formas de verdade, mais dia menos dia, deve entrar em crise muito em breve. Uma crise das brabas.










