Jorge Luis Borges dizia que uma das melhores maneiras de se aprender inglês é ler a versão da Bíblia do Rei James, de 1611.
A Bíblia, independentemente da versão, sempre é uma fonte de literatura e até de poesia.
Uma das coisas mais legais desse livro, nesse sentido, é a síntese de suas histórias, principalmente nos Evangelhos.
Muito enxutas, tudo é contado muito rapidamente. O retrato é esboçado em poucos traços. Muita coisa passa como subentendida. Muito é dito pela ausência. Só o essencial está ali, aquilo que o tempo entre o acontecido e o escrito permitiu ficar.
O trecho As Bodas de Caná, no segundo capítulo do Evangelho de João, é um bom exemplo disso. Quando eu era uma criança carola e não esse pervertido que sou hoje, essa era uma das passagens que mais me causava assombro por motivos que só hoje entendo.
E, ao terceiro dia, fizeram-se umas bodas em Caná da Galiléia; e estava ali a mãe de Jesus. E foi também convidado Jesus e os seus discípulos para as bodas.
E, faltando vinho, a mãe de Jesus lhe disse:
- Não têm vinho.
Disse-lhe Jesus:
- Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora.
Primeiro momento de tensão. Como assim? Jesus chama a própria mãe de “mulher”? Isso soa estranho aos ouvidos de uma criança. Creio que a mim, na época, se minha memória emocional não falha, passou a impressão de um sujeito de personalidade forte que, naquela hora, estava ocupado com outras coisas. Conversando, comendo ou bebendo, ele não queria ser incomodado. Nem pela mãe.
Sua mãe disse aos serventes:
- Fazei tudo quanto ele vos disser.
Como assim? Ele não havia acabado de dizer a ela que não queria ser incomodado? Então, eu entendi que aquilo de “Mulher, que eu tenho contigo?” era uma forma de falar “Tá bom. Depois eu faço.” Todo adolescente tem um jeito muito próprio de dizer isso. Jesus já era adulto, mas certos hábitos permanecem. E, afinal de contas, uma mãe conhece o filho. Além disso, ela sabia, ele era um bom menino. Iria ajudar.
E estavam ali postas seis talhas de pedra, para as purificações dos judeus, e em cada uma cabiam dois ou três almudes.
Disse-lhes Jesus:
- Enchei de água essas talhas.
E encheram-nas até em cima. E disse-lhes:
- Tirai agora, e levai ao mestre-sala.
E levaram. E, logo que o mestre-sala provou a água feita vinho (não sabendo de onde viera, se bem que o sabiam os serventes que tinham tirado a água), chamou o mestre-sala ao esposo. E disse-lhe:
- Todo o homem põe primeiro o vinho bom e, quando já têm bebido bem, então o inferior; mas tu guardaste até agora o bom vinho.
O desfecho dado pelo narrador é um toque de mestre. É o tipo de coisa que se ouve na literatura oral, nas histórias contadas por nossos pais e avós. Note que Jesus não cuida de apresentar o milagre depois de feito. Ele simplesmente o faz e cuida para que os assistentes levem o resultado para aquele que melhor vai propagar a magnitude do feito: o somelier da casa.
Depois disso, ele deve ficar na dele, a observar enquanto todos estão tentando descobrir o que aconteceu, como alguém que troca o açúcar pelo sal e diverte-se com a reação das pessoas. No caso, a vítima era o mestre-sala. Mas claro que, nesse caso, a traquinagem foi benéfica.
Porém, essa é apenas uma das muitas leituras que se pode fazer das Bodas de Caná. Uma outra possível é a policial.
Mas como dizia Michael Ende, esta é uma outra história que deve ser contada em outra ocasião.
O trecho As Bodas de Caná deste texto foi retirado versão Almeida Fiel e Corrigida da Bíblia.









