Há 99 anos, no dia 7 de novembro de 1913, nasceu Albert Camus, na Argélia, filho de pai francês e operário de vinha e mãe espanhola e analfabeta. Seu pai morreu no ano seguinte, no início da Primeira Guerra Mundial. Graças a uma bolsa teve acesso à educação, o que Camus pensava que poderia mudar a sua vida – o que realmente aconteceu.

(Foi lendo um livro de Kafka em 2008 que me deparei com o nome de Albert Camus pela primeira vez – não lembro exatamente se em alguma nota de rodapé ou se no posfácio. Quando fui ler algo a seu respeito logo me veio um “eu preciso ler Camus!” à cabeça – o existencialismo, o absurdo, o mal-estar, tudo parecia estar presente em sua obra. Dos seus livros eu li “O Estrangeiro”, “Estado de Sítio” e “A Queda” e apesar de ainda não ter lido “A Peste” e “O Mito de Sísifo”, certamente essenciais para a compreensão da sua obra e do individuo camusiano, vou me arriscar a escrever um pouco sobre ele, para não deixar a data passar em branco.)

 

Camus viu de perto a condição em que eram postos os naturais da Argélia, em função do tratamento a eles dado pelos colonizadores franceses. Tendo formação e experiências como filósofo e como jornalista ele reconhecia, por um lado, considerável atraso dos nativos argelianos quando comparados aos franceses e que a colonização francesa com muito contribuíra para o desenvolvimento do país. Mas considerava também, por outro lado, o aspecto negativo da manutenção do colonialismo. Albert Camus engajou-se politicamente (filiando-se ao Partido Comunista e nele atuando por dois anos como jornalista e coordenador da Casa da Cultura) e defendia a ideia de assimilação dos povos. Diante das ações dos governantes, que insistiam em cultivar a ideias de superioridade de um povo em relação a outro, da série de privilégios que poucos tinham em detrimento da grande maioria e da pressão que sofria em função de alguns textos seus e de suas ideias, Camus abandonou a política, na qual nunca havia visto possibilidade de carreira, e em 1940 se mudou para a França.

A obra de Camus é comumente ligada ao movimento existencialista e ao falarmos em existencialismo o nome de Jean-Paul Sartre será quase sempre o primeiro a surgir. Sartre elogiou muito o livro “O Estrangeiro”, publicado em 1942, e eles se conheceram em 1944. Mais tarde, com a publicação de “O Homem Revoltado”, eles se desentenderam e Jean Paul Sartre chegou a chamar Camus de “burguês conformista” por ser omisso quanto à questão argelina. Fato é que: para os argelinos ele estava do lado dos franceses; para os franceses ele estava se omitindo; para os argelinos a única saída parecia ser a guerra e a expulsão dos franceses; para os franceses o caminho parecia ser o de fazer com que os argelinos “evoluíssem” (adotando a cultura e os valores morais franceses). Camus não se encontrava nessas posições. Ou seja, por fugir desses dois extremos e defender uma assimilação e conciliação entre os povos (e suas culturas e valores), Albert Camus foi tomado por omisso, sofrendo pressões dos dois lados.

(Um fato interessante é que Camus conseguiu ser notado enquanto escritor mesmo sem militar politicamente, em um período em que os intelectuais estavam sempre envolvidos nas questões políticas.)

Camus não gostava de ser identificado como filósofo e não se considerava um existencialista (chegou a dizer que era uma piada o fato de o classificarem como existencialista e sempre ligarem o seu nome ao de Sartre). Apesar de para muitos a influência de Kierkegaard em suas obras ser provavelmente a principal, Camus preferia dizer que tinha influências mais literárias, como Dostoievski e Kafka. Escreveu certa vez: “nosso século XX é o século do medo” – o que não faz dele um pessimista (título que lhe é dado injustamente, imagino), pois perceber o absurdo não é ser pessimista, uma vez que para Camus o absurdo era o início e não o fim.

Provavelmente esse afastamento da Argélia e da questão dos conflitos entre os nativos e os colonizadores tenha contribuído para que Camus tivesse mais tempo para se dedicar aos livros. Dos seus principais livros, publicou “O Estrangeiro” e “O Mito de Sísifo” em 1942, “O Mal-Entendido” e “Calígula” em 1944, “A Peste” em 1947, “O Homem Revoltado” em 1951. Em 1957 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura “por sua importante produção literária, que com lúcida sinceridade ilumina os problemas da consciência humana em nossos tempos”.

Albert Camus morreu no início de 1960, em um acidente de carro, gerando grande comoção no mundo inteiro. O então Presidente do Comitê do Prêmio Nobel de Literatura, Anders Oesterling, afirmou que Camus havia recebido o Prêmio ainda jovem (o que o próprio Camus reconhece em seu discursoleia aqui), justamente por já ter uma obra incrível e por certamente ainda ter muito a escrever.

Para encerrar, coloco aqui um trecho do seu livro “O Estrangeiro”:

– Chegou a mostrar remorsos? Nunca, senhores. Nem uma só vez no decurso do sumário de culpa este homem pareceu abalar-se com seu crime abominável. – Neste momento, voltou-se para mim e apontou-me com o dedo, continuando a fulminar-me sem que, na realidade, eu compreendesse muito bem por quê.
Não posso deixar de reconhecer, sem dúvida, que ele tinha razão. Não me arrependia muito do meu ato. Mas a sua obstinação espantava-me. Gostaria de tentar explicar-lhe cordialmente, quase com afeição, que nunca conseguira arrepender-me verdadeiramente de nada. Estava sempre dominado pelo que ia acontecer, por hoje ou por amanhã. Mas naturalmente, no estado a que me haviam levado, não podia falar a ninguém neste tom. Não tinha o direito de me mostrar afetuoso, de ter boa vontade. E tentei continuar a escutar pois o promotor começou a falar da minha alma.

Sobre o autor: Raul Maciel

Estudo Ciências Econômicas e não descobri qual é o meu grande talento (sim, ainda espero ter algum). Cheiro livros, jogo futebol e gosto do ponto e vírgula; ainda que não saiba utilizá-lo. Andando sozinho me policio para não pisar nas linhas da calçada enquanto penso em alguma coisa sobre coisa nenhuma.