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Angelo Machado: neuroanatomista, especialista em libélulas, autor infantil

26 de fevereiro de 2007 | Publicado na Categoria Livros e afins, O prazer de escrever | 13 Comentários »

O sujeito é neuroanatomista. Dos bons. No meio da carreira, arranja tempo para se tornar o maior especialista brasileiro em libélulas. Simplesmente porque as acha belas. Poderia dar-se por realizado, então.

Mas resolve seguir a carreira da prima, Maria Clara Machado, e passa a se dedicar à literatura infantil, porque “um homem não deve viver sem hobby”. E começou um novo: escrever livros infantis e peças de teatro. Afinal, as libélulas já tinham deixado de ser hobby há muito tempo.

Então, vou fazer uma coisa que não costumo e indicar os livros de Angelo Machado simplesmente porque a entrevista dele para a revista Pesquisa Fapesp muito empolgou-me.

Entre outras coisas, ela traz à baila o tema da literatura infantil como possibilidade de iniciação aos conhecimentos científicos – papel muito questionado pelos críticos de literatura infantil.

Ora, francamente.

O melhor crítico da literatura infantil deveria ser o seu exigente público, em geral muito mais sábio que qualquer crítico de fato.

O tema da necessidade de uma educação para a ciência já foi abordado neste site, daí um outro motivo para eu me empolgar em indicar a entrevista.

Mas o que mais me interessou foi a capacidade e a vontade de aprender desse autor que ainda desconheço, infelizmente.

Ele conta como foi sua experiência ao escrever seu primeiro livro para crianças:

Fui de férias para a praia, comecei a escrever e saiu uma porcaria. Sem querer, eu usava linguagem científica. Resolvi então contar a história para uma criança imaginária no gravador e o texto melhorou muito. Hoje não preciso mais do gravador.

Quer dizer, o cara sabia que teria muito que aprender. É o tipo de coisa que faz pensar se está certo aquele ditado que diz que não se ensina truques novos a um cachorro velho.

Mas ele teve bons professores. Tudo começou com as libélulas.

Tenho uma tia, Lúcia Machado de Almeida, que foi escritora de literatura infantil. Em dois de seus livros os insetos são importantes: O escaravelho do diabo e O caso da borboleta Atíria. Um dia ela me disse, “Tem um professor chamado Newton Dias dos Santos que está dando um curso no Instituto de Educação e entende muito de libélulas. Leve suas libélulas lá que ele pode dar os nomes científicos”. Eu tinha 16 anos, fui até ele com uma caixinha com cinco libélulas e disse, “Professor, a tia Lúcia falou que o senhor poderia dar o nome dessas libélulas para mim”. Ele me olhou e falou assim, “Não vou dar nome de libélula nenhuma”. Eu me apavorei. Mas ele continuou, “Você mesmo vai achar os nomes”. E me deu o manuscrito da tese dele sobre libélulas de Lagoa Santa com a recomendação de ir para casa, estudar e descobrir sozinho. Fiz isso. No dia seguinte voltei lá, acertei alguns nomes, errei outros e ele me mostrou por que eu tinha errado. Aquilo foi decisivo. Em vez de simplesmente dar a solução, me mostrou o caminho. Aquelas libélulas eram banais. Se ele tivesse dado o que pedi eu teria apenas cinco nomes. Como não deu, mexo com libélulas até hoje. Passei as férias no Rio na casa do meu tio, o escritor Aníbal Machado, e ia diariamente ao laboratório do Newton Santos no Museu Nacional estudar libélulas. Voltei no ano seguinte. Assim me tornei especialista em libélulas.

Lembra que já falamos sobre como é mais fácil aprender as coisas sobre as quais se tem interesse? Pois é. Mais uma coisa que acabou me chamando a atenção.

Alguém aí tem um livro de Augusto Machado para me emprestar? Alguém me disse que até o livro básico de neuroanatomia dele é bom.

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13 Comentários para “Angelo Machado: neuroanatomista, especialista em libélulas, autor infantil”

  1. leanDrow - 26 2 2007 às 22:12

    O escaravelho do diabo… vi esse livro a anos e anos atrás, tinha na biblioteca de onde eu estudava… e faz tempo isso. A menos que eu esteja lelé da cuca.

    Um hobby é mesmo MUITO bom, estava conversando a um tempo com meu pai sobre isso…

    Abraços Alessandro

    Resposta: A Coleção Vagalume iniciou muita gente na literatura… confesso que nunca li nada dali… eu fui direto na Para Gostar de Ler e, depois, Fernando Sabino e afins…

    Abraços!

  2. Paulo Polzonoff Jr - 26 2 2007 às 22:51

    O melhor crítico de literatura do Brasil é o Vovô Anselmo. Será que ele ainda está vivo?

    Resposta: Meu… bem que ele podia voltar a escrever, não é mesmo?

  3. _Maga - 27 2 2007 às 1:09

    Ah, esse professor veio até Londrina para dar uma palestra sobre… libelulas, isso (com tanta função de destaque tem que pensar pra descobrir) e na época o jornal fez uma entrevista com ele (no papel do seu eu-escritor rs) e lembro que fiquei impressionada também.

    Educação para a ciência. Também acredito muito nisso! Acho que facilitaria muito as coisas, e melhoraria drasticamente outras. Que coisas? O mundo em geral, afinal chegaria um tempo em que encarariamos a vida como Drummond sugere no final do seu poema Os ombros suportam o mundo “Chega um tempo em que a vida é uma ordem / A vida, apenas, sem mistificação” (bah, esse poema é perfeito…).

    Achei interessantissimos alguns dados da bibliografia dele (alias, sei que se não fossem interessantes tu não terias colocado eles aqui né? mas não custa resaltar… rs):

    1 – a familia dele, composta por escritores, pessoas que de alguma forma o incentivavam a crescer (“vai lá conversar com o professor” tia), disponibilizavam material para isso (livros é um ótimo começo), enfim, criaram um clima favoravel a aprendizagem. Isso é ótimo!

    2 – novamente a familia dele composta por escritores que de alguma forma marcaram a minha vida. Ou será que só eu adorava a “Coleção Vagalumes” e nunca li “O escaravelho do diabo” porque morria de medo até do nome? rs

    3 – ele ter acesso a museus, laboratorios, etc…

    [off-topic] Inevitável olhar para a minha própria vida neste momento e fazer a pergunta fatídica: como alguém que morou/estudou em Mariópolis-Pr até os 13 anos se tornar um gênio em algum momento? hahahaha (eu só queria ser um gênio, mais nada ahahahah)… olhando para isso não tem como não endosar que reamente precisamos de educação para a ciência… afinal, nas cidades do interior, laboratórios em escolas (qdo existem) ainda são para ficarem fechados e a salvo dos alunos (rs) (e olha que eu ainda acho que dei sorte… bom, uma Pollyana nata, eu diria… ahahahah) [/off-topic]

    beijos

    Resposta: A verdade é que não me importo de você ser prolixa, Maga… esse nick é por conta do livro do Cortázar?

    Beijos…

  4. Silvia S. - 27 2 2007 às 9:28

    Alessandro, AMEI! Já anotei a lista de livros para procurar na próxima visita à livraria (eu gosto de folhear os livros antes de presentear as crianças), já passei para minhas amigas-mães (com os devidos créditos), destacando este trecho da entrevista:

    “O senhor chegou a alguma conclusão sobre como a literatura infantil deve ser feita?
    — Eu acho que têm de ter histórias. Você pode entrar com poesia, onomatopéia, metáfora, a linguagem que quiser. As crianças, principalmente as que têm por volta de 10 anos, só vão gostar se tiver aventura. Outro componente importante que as crianças gostam é o humor. Eu costumo dizer que o escritor de literatura infantil é mais importante que o de literatura para adultos. Se os meninos não aprenderem a gostar de ler livros infantis, nunca lerão os livros de literatura para adultos. Se um adulto lê um livro e não gosta, ele deixa de lado e procura outro. O menino fecha o livro e não lê nunca mais.”

    E se a literatura diverte e ainda ensina algo, tanto melhor! Até eu aprendo ao ler para as meninas. Se tiver noções de ecologia, fico mais feliz ainda. :-)

    Obrigada, Alessandro!

    Beijos,
    Silvia

    Resposta: Essa também é uma das minhas partes preferidas da entrevista. Só não coloquei porque iria ficar muito longo… obrigado :-)

  5. Thássius Veloso - 27 2 2007 às 12:26

    Homem incansável. Quando poderia dizer-se satisfeito com a vida, acabou por arrumar mais uma forma de crescer como pessoa e profissional. Agora é escritor.

    História fantástica. Poder transformar hobby em seu trabalho e executá-lo com prazer é uma idéia que me agrada bastante, mas poder manter o hobby como simplesmente hobby e adquirir novas capacidades me atrai muito mais.

    Resposta: O mais engraçado é que as pessoas às vezes ficam irritadas quando há a possibilidade de alguém ganhar dinheiro com seu hobby… parece que trabalho tem que ser algo sofrido… rs

    Abraços,
    do Ale.

  6. antonietto - 28 2 2007 às 1:14

    Livro do Angelo Machado se chama “Neuroanatomia Funcional” e é referência na área. Usado em praticamente todas as escolas de medicina no Brasil. Ed. Atheneu.

    (Biblioteca da UnB vc encontra fácil, Adam)

    Resposta: Me disseram que é um livro bastante acessível, é verdade?

    Obrigado pela dica, Antonietto!

    Abraços,
    do Alessandro.

  7. Rosana O. - 2 3 2007 às 21:41

    Eu li a coleção vagalume ! E na verdade continuo lenro, junto com os meu meninos. Sempre que vamos a uma livraria, eles perguntam sobre os livros que li. Também li a ” Para gostar de ler”.
    Tão bom ver alguem produtivo, feliz…
    Tão bom fazer o que gosta!

    beijão

    Resposta: Eu acho que, mesmo no caso do Ângelo Machado, não é uma questão de sorte. Ele é o tipo de cara que escolheu a sua sorte…

    Beijos,
    do Ale.

  8. corvo - 2 3 2007 às 23:51

    Caraaamba! Eu já li ‘O Escaravelho do Diabo’! Bateu uma enorme nostalgia agora…

    Eu apoio livros que despertam o interesse em ciência nas crianças. Direciona e auxilia a descobrir novos talentos.

    Resposta: Apesar de eu não ter lido a Coleção Vagalume, eu a via em todas as bibliotecas pequenas ou grandes de meus amigos… também senti uma certa nostalgia… talvez a encarasse hoje em minhas leituras…

    Abraços,
    do Alessandro.

  9. Camila - 22 9 2007 às 23:09

    Realmente o livro “Neuroanatomia funcional” é bem acessível, e referência não só na medicina como na veterinária.
    A forma como o Prof. Angelo Machado introduz o meio ambiente para crianças me impressinou! E dizer que ciência e literatura não combinam, é pura ignorância!!!!!!
    Ah! li vários livros da coleção vagalume (adorava), entre eles o “O escaravelho…”. Deve ter sido o primeiro livro de “suspense” que li . Vi que os livros poderiam ser muito mais interessantes do que pensava.

  10. Professora - 30 11 2008 às 10:15

    Trabalho numa escola de Educação Infantil que participa do Projeto de leitura da Petrobrás,o Leia Brasil ,e fizemos uma adaptação de um livro do autor Angelo Machado para apresentar nosso projeto final.Fomos classificados para representar o nosso município no centro de convenções de Macaé.Foi um trabalho muito lindo com crianças de 3 anos.O livro que adaptamos foi”Que bicho será que botou o ovo?”.

  11. Alessandro Martins - 2 12 2008 às 8:46

    Professora,

    meus parabéns por seu trabalho e pela escolha do título.

    Abraços do Alessandro.

  12. Alice - 5 3 2009 às 16:22

    EU AMO OS LIVROS DO ANGELO Machado…..
    Beijos!!!!!

  13. Lola Estefh - 12 5 2009 às 1:27

    Mr.Machado voce é D+!:-)

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