Ainda somos homens da caverna?

Nós, seres da internet, somos muito parecidos com homens (e mulheres) da caverna.

Não sou antropólogo e, por isso, não entrarei em detalhes científicos, mas quando digo homens da caverna imagino a coisa como se ainda estivéssemos mais próximos dos bichos que do humano propriamente.

Pense em um grupo de homens da caverna. Falemos em bando, não em tribo. Se por acaso deparavam um outro ajuntamento de homens da caverna, ainda que em tudo fossem similares, uns não conseguiriam se reconhecer nos outros.

Igualmente proto-humanos, mas igualmente dispostos a uma briguinha sangrenta contra tudo aquilo que não fosse o “eu” ou, pelo menos, o “nós”.

Junte a isso uma grande dificuldade de reconhecer a si mesmo no “outro” e teremos uma batalha.

O intelecto desses homens da caverna era insuficiente para, mesmo vendo frente à frente o “outro”, identificar um semelhante. Ora, se eu não consigo ver o outro e se não sou capaz de me identificar com ele, também não vou me importar nem um pouco em feri-lo. Arrancar um braço a dentadas ou a pauladas, por exemplo.

Mosquitos

Eis por que você é capaz de matar um mosquito – pois não vê nada de si nele. Eis por que você paga para matar a vaca que come – ei, afinal seria mais complicado, na média, para os humanos pessoalmente tirarem a vida de um bicho tão mimoso e tão grande. E eis por que você eventualmente tem chiliquinhos ao saber que determinada cultura se alimenta de cachorros. Chamemos de grau de identidade a quantidade de si que você é capaz de colocar em um ser ou objeto. O Rex em cima da mesa com uma maçã na boca? Nem pensar. O Rex é quase uma parte importante de você. Pense na quantidade de pessoas que trata cachorros como se fossem filhos humanos.

Eis por que, nas guerras, os exércitos se esmeram em desumanizar e demonizar o inimigo. O sargento quer que o soldado esqueça que o cara que ele deve matar é igualzinho a ele, com mãe, pai, uma namorada de trancinhas e, talvez, um filhinho. Você deve acreditar que ele é uma espécie de inseto.

Somos TÃO evoluídos

Agora, voltemos aos tempos atuais. Uma época evoluída. Já não vivemos em cavernas e dispomos do máximo de tecnologia e de fios e de ondas de rádio por onde circula toda a informação do mundo. Se você tem um computador conectado à internet e alguma instrução só ficará ignorante se quiser. Você é um ser moderno. Você conhece todos os episódios de Lost. Não é em nada parecido com um homem da caverna.

Não, na verdade.

Não sinto isso.

Sempre tem alguém errado na internet

E não julgo apenas os outros quando digo isso. Eu mesmo, muitas vezes, me surpreendo revoltado e disposto à briga com alguém que nem conheço pessoalmente, simplesmente porque ele falou mal de meu livro favorito ou da minha série predileta ou do compositor do período barroco do qual eu tenho a discografia completa. Ou porque escreveu com todas as letras uma opinião que EU julgo absurda.

O ser humano é muito inteligente, mas seus reflexos primitivos ainda o tornam, na média, incapaz de reconhecer de imediato a pessoa que há por trás das palavras, seja em um fórum, seja em um blog, seja no Orkut, seja no Facebook, seja no Twitter, seja em um email.

E, sem perceber a pessoa que há por trás das palavras, além da tela, é muito fácil atacá-la.

Como aquele mosquito de algum parágrafo ali acima.

Visão além do alcance

Milhares de anos se passaram e, apesar de termos desenvolvido a escrita, não conseguimos evoluir do reconhecimento facial, físico, para o reconhecimento através dos signos e das ideias: por trás desses sinais e encadeamentos de pensamentos há sempre um humano.

Por isso, ainda é muito importante pensar antes de clicar em botões que tragam dizeres como “enviar”, “publicar” ou “comentar”.

Possivelmente, aquilo que ativou o seu estado beligerante, aquilo que o deixou pronto para briga, como um animal selvagem, como um Mr.Hyde cibernético, foi um engano do “outro”, cinco minutos de bobeira, algo que ele não entendeu. Ou, quem sabe, quem está certo é ele e é você não consegue entender ou admitir.

Mas, seja lá o que for, não deveria ser suficiente para colocar dois grupos brigando.

O melhor é deixar para lá.

Agir, reagir ou abrir mão de qualquer ação e a escolha entre todas essas possibilidades é a diferença entre subitamente tornar-se humano e, mais subitamente ainda, tornar-se um homem da caverna. Ainda que com palavras: agressivo, violento, animal.

Postado em Ética.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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