coruja vesga

Para além de sua função fisiológica, narizes são penduricalhos esteticamente importantes. Parece-me um comportamento mais tipicamente feminino ficar reparando em napas alheias – difícil imaginar um homem confessando para o amigo no boteco, “nossa, que nariz é aquele, meu Deus!” –, mas a graça (ou desgraça) nasal sempre cumpre grande papel, embora, muitas vezes, a pessoa não consiga identificar o que há naquele rosto de tão agradável, ou tão esquisito – é o nariz. Basta ver as fotos de “antes e depois”, em relação a rinoplastias de celebridades, para confirmar o quanto uma pequena alteração na fuça faz tremenda diferença.

Posta toda essa glória do nariz, sempre achei bajulação excessiva o merecimento de dois adjetivos exclusivos para o nosso querido órgão: “aquilino” e “adunco”. Não sei o que é aquilino, tampouco o que significa adunco, se é que há diferença entre o significado das duas palavras, mas é mais fácil um camelo passar por um buraco de uma agulha do que encontrar uma associação dessas qualidades com outro termo que não “nariz”.

Ora, outros órgãos tão ou mais importantes não merecem tamanha deferência. Mãos, bunda, cérebro, unhas, nenhum deles conta com adjetivo próprio, o nariz tem logo dois! Até “vesgo”, de associação óbvia com os olhos, pode ser encaixado, em conotação, com outras palavras, e já até ouvi falar de “mamilo vesgo”.

E se está na moda protestar, eu protesto. Mas não vou ficar só no blá blá blá não, vou-me mexer para alterar o ignominioso estado das coisas. Na próxima vez em que me servirem um vinho, e não me vier à mente nada além de “bom”, “mais ou menos” ou “que porcaria”, afirmarei com segurança que a bebida está um pouco adunca. E em minha autopropaganda, garanto que tenho uma sexualidade aquilina, assim como este tempo de hoje, muito aquilino, São Pedro deve estar de mau humor. Deve ser por causa do comportamento adunco de muita gente aqui no nosso planeta.

Quanto aos outros órgãos, postos de lado por nosso léxico, farei justiça por conta própria (outra atitude que parece em voga), usando termos originais em meus louvores.

Minha linda, minha querida, minha redenção, você não sabe o quanto mexe comigo o simples fato de poder segurar sua mão tespícua, afagar seus dedos pervilinos. Seu olhar sarrofício, suas palavras anoras, seu sorriso parâmbolo, toda essa sua presença merfúria me nocauteia, e como é bom ficar no chão, aos seus pés. Acredite em mim, confiemos em nós, caminhemos juntos em pegadas sôltidas e macrumes.

Adunco e aquilino? Francamente. Deveriam seguir o exemplo de Tomilho & Cominho e formar dupla sertaneja.

photo credit: @Doug88888 cc

Sobre o autor: André Simões

André Simões, 29, jornalista, cronista, mestre em Estudos Literários pela UEL e "cliente VIP número 1 do Santoíche", conforme atestado em condecoração solene promovida pelo proprietário da lanchonete. Em 2010, publiquei meu primeiro livro de crônicas, "A Arte de Tomar um Café" (AtritoArt Editorial/Promic). Interessados em adquirir esta pérola da literatura brasileira podem entrar em contato pelo e-mail adfsimoes@gmail.com. Esquema Radiohead de transação comercial: pague o quanto quiser mais as despesas de postagem.