Academia Brasileira de Rimas

Você conhece a Academia Brasileira de Rimas?

Eu não conhecia, até assistir ao programa Provocações comandado pelo Abujamra .  Lá, Thaide faz diversas reflexões a respeito das provocações de seu interlocutor e menciona que foi membro da ABR.

Formada em 1999, um dia após a morte do dramaturgo Dias Gomes, a ABR surgiu como homenagem. Isso porque Dias Gomes fazia parte da Academia Brasileira…de Letras!

O grupo inicialmente era formado por Paulo Napoli, Max B.O, Akin e Kamau. Eles participaram de grandes apresentações pelo Brasil, como no Free Jazz Project e no Humaitá Pra Peixe, conquistando fãs por toda parte. Nomes como Dj Nutts, Tio Fresh, Marechal e Thaíde participaram de shows e de gravações de alguns sons.

O que tornava a Academia Brasileira de Rimas diferente era o conteúdo das rimas e o poder de improviso dos integrantes do grupo, o chamado freestyle. Nessa vertente do rap, o MC improvisa em cima da base com o que aparece pela frente: o calor do ambiente, a roupa de alguém da platéia ou a microfonia que teima em aparecer.

Agora, sobre a rima…

O que é?

Segundo Babette Deustch

“the repetition of the same or similar sounds, whether vowels, consonants, or a combination of these in one or more syllables, usually stressed and occuring at determined and recognizable intervals”.

Em tradução livre:

“a repetição dos sons iguais ou semelhantes, quer vogais, consoantes, ou uma combinação destes em uma ou mais sílabas, geralmente sublinhadas e que ocorrem em intervalos determinados e reconhecíveis”.

Qualquer pessoa é capaz de reconhecer uma rima ou a ausência dela. Reconhecer, inclusive, quando ela está no tempo certo da versificação ou quando o seu encaixe (às vezes proposital) não encontra o tempo certo, configurando um mero recurso estilísco ou estético. Alguns estudos apontam que a tendência à interação de sons está no próprio mecanismo psicológico da linguagem humana, portanto, está antes da linguagem escrita, antes da metrificação, antes das classes gramaticais, está no sentimento do indíviduo e na sua forma de expressão dele e do mundo.

Jogos de palavras, cantigas de ninar, anexins(1), símbolos sonoros comunicativos. A origem da rima é uma matéria super controversa. Sua origem pode ser apontada no siríaco(2), hebraico, árabe ou latim, e alguns vestígios foram identificados até mesmo na antiga poesia chinesa.

Outras origens (fantasiosas), e ainda mais interessantes

 ”Jena le Maire des Belges, em Illustrations des Gaules, e Nostradamus, em Vie des poètes provençaux, atribuíram ao quinto rei gaulês, Bardus, no ano 2140 da criação do mundo, a invenção da consonância”.

“(…) a rima fora inventada por Samoteu, filho de Jafé, inspirado em Adão que, nas delícias da bem-aventurança, compusera versos no Paraíso Terrestes…”

Historicamente falando, deve-se a Aristóteles o primeiro registro retórico do encontro das terminações vocabulares, que viria a ser definido por Quintiliano como “similis duarum sententiarum vel ribus finis” com uma ajudinha do google tradutor (alguém aí domina o latim?) fica assim “funciona como o final de uma frase ou duas”.

Outros estudiosos apontam ainda sua origem na poesia eclesiástica, provindo dos sermões, declamados com modulações musiciais, de acordo com preceitos retóricos que se aproximariam do que conhecemos com o canto gregoriano.

Encontra-se ainda explicações que provém da prática de uso de recurso psicológicos para a memorização de textos, e marcação de pausas ou mudanças de ato no teatro “Curiosa aplicação dos efeitos mnemônicos da rima pode ser notada no teatro shakespeariano, em que consoantes, não usadas regularmente, aparecem nos fins de cenas e de atos”.

Em tudo isso não resta apenas o fato da comunicação pura e simplesmente, nem tão pouco a afetividade que pode ou não vir atrelada ao recurso. Trata-se de como se comunica, utilizando esse recurso.

(1) Segundo o Houaiss “antiga língua semítica” e remotando o conceito subsequente “relativo ao ramo da família camito-semítica de línguas, que se estende do Noroeste da África até o Sudoeste da Ásia [Inclui o hebraico, o aramaico, o assírio, o árabe, o maltês, o amárico, o tigrínia, e algumas línguas antigas e já extintas, como o acádio, o amorita, o fenício, o moabita”.

(2) sentença popular que expressa um conselho sábio; provérbio

Fonte:

NÓBREGA, Mello. Rima e Poesia. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro Ministério da Educação e Cultura, 1965.

Postado em Variedades.

Sobre o autor

Roberta Fraga

Crio seres imaginários, escrevo contos, costuro histórias.

Deixe seu comentário