Aboliram a mulher pelada
06/08/2009A mulher pelada, a partir de hoje, está abolida.
Não que seja necessário abolir. Não sei se você reparou, mas faz tempo que não se vê mulher pelada por aí.
Estou convencido de que mulher pelada é bicho em extinção. Todo mês, corremos, nós homens, às bancas atrás da última revista especializada.
Na esperança de que surja a mulher pelada.
A decepção é tão grande que nem sabemos com convicção suficiente que ficamos decepcionados. E fingimo-nos contentes.
É uma decepção muito íntima. Como a bolinha de gude favorita perdida no último campeonato antes das férias de verão. Nunca mais vista.
A mulher pelada também está perdida.
Todos nós sentimos isso ao folhear a revista, mas não conseguimos admitir.
A previsão é que, muito em breve, a página central não traga uma mulher, mas uma análise técnica da versão mais recente do mais turbinado software de manipulação de imagens.
A verdade é que as mulheres – e até os homens, até os homens – que se vê nas capas e nas páginas das revistas são irreais. Eles são, efetivamente, as análises técnicas do mais turbinado softwares de manipulação de imagens.
Metalinguagem, senhoras e senhores.
E corremos baixar as imagens da última suposta mulher pelada.
Ela não foi parida através da genitália de uma mãe. Foi trazida ao mundo pela cesariana da pós-produção fotográfica a alimentar nossas expectativas e a fermentar nossas decepções.
A publicidade pede mulheres de 20 para interpretar mulheres de 30. Basta ir para a tela e qualquer mulher envelhece 10 anos. Automagicamente.
Olhe para os anúncios de dia das mães com os olhos da realidade: sinceramente, você conhece tantas mães tão jovens com filhos tão crescidos e tão bem nutridos?
O bom é que fomenta a indústria de cosméticos. A indústria de regimes. A indústria da plástica e de cânulas para lipoaspiração.
E a indústria de softwares de manipulação de imagens.
A nudez é pura. A nudez verdadeira, digo, é pura. O que se vende hoje está além do alcance da pureza (diga-se de passagem: a pureza pode ser sacana).
Não se quer a nudez pura e simples. Quer-se a nudez, enfim, de alguém célebre por nada. A celebridade é brindada por seu vazio expondo um corpo que não é seu. Que não é de ninguém. Que não existe.
Ao ver, você pode julgar que seu olhar é puro e sacana. Mas é apenas um olhar enganado.
(por favor, não há nada absurdo nas celulites daquela atriz, garota propaganda de cerveja, então reveladas em um furo de reportagem; você sabia muito bem que as celulites estavam lá e, no fundo, desejava que elas aparecessem)
Senhores editores: parem de esconder as mulheres peladas.
Nós sabemos que elas estão aí em algum lugar.
Nós queremos mulheres peladas de verdade.
Mulheres em que as mulheres com quem vivemos – nas ruas, nas camas – se vejam como em um espelho. Para que sejam mais felizes.
Para que haja mais sexo de luzes acesas. Quem sabe até para que, no futuro, haja mais sexo à luz do dia, a céu aberto.
Para que eu me veja, como homem, mais confiante: posso estar com uma mulher assim. Não é um ET. Ou um produto da ficção. Ou mitologia.
É apenas uma mulher pelada. Uma mulher pelada de verdade.
Uma mulher pelada. É tão difícil isso?
As mulheres peladas dos pintores são mais reais, infinitamente mais reais, que as mulheres peladas das revistas.
Não são apenas frutos da imaginação, em suas cores e suas formas. Suas cores e formas singulares até podem corresponder a expectativas singulares.
Mas são expectativas atingíveis por homens e mulheres reais.
Outro dia escutei, no ônibus, um homem cutucando o vizinho, oferecendo lápis e papel e dizendo:
- Ei. Desenha pra mim uma mulher pelada?
E o outro, com uma franqueza melancólica:
- Não posso. Não sei.
Disse, por fim, que não lembrava como era uma.





11 comentários
Caralho Alê! Como eu queria ter escrito esse post. Simplesmente genial. Expôs de maneira incrível o que vem acontecendo com o mercado editorial sobre o tema mulénua!
(Foi mal o puxasaquismo, mas esse foi merecido)
Cara, sinceramente… É bem por aí mesmo viu. Eu simplesmente tenho preconceito de mulheres “robóticas”. Silicone aqui, alí, plástica aculá, só pra parecer uma indiana (de mentira) da novela.
Pouco tempo atrás recebi um e-mail genil da Suzana Vieira em uma revista de beleza, depois em uma na praia… a comparação era tipo… uma mulher de 50 anos com corpo de 20 na revista para uma mulher de 50 anos com corpo de 52 na praia.
A melhor alternativa é a internet, pois eu prefiro pesquisar na web até achar uma mulher de verdade do que pesquisar em todas as bancas e nunca achar.
Parabéns aos seios que balançam naturalmente!
Bom, elas não estão completamente peladas, mas eu e um amigo fotógrafo estamos fazendo a nossa parte:
http://www.gatasdapraia.com.br
Alessandro,
Tentei comentar antes, pelo jeito não foi enviado corretamente.
Bom, dizia eu que, apesar de não estarem completamente peladas, eu e um amigo fotógrafo estamos fazendo nossa “humilde” parte através do site abaixo:
http://www.gatasdapraia.com.br
100% sem photoshop.
Abraços
Muito Bom Alê. Pra encontrar mulheres reais na mídia hoje em dia deve-se utilizar a quarta dimensão. Imgens com movimento (ainda) dificultam a aplicação de corretivos eletrônicos nas imagens e é até possível ver as imperfeições da pele. Se é que podem ser chamadas assim. Talvez sejam apenas as imperfeições das cabeças dos “photo manipulators” projetadas nos corpos delas…
Excelente texto!!!
Forte abraço
Fabão
Quando eu vi o título, fiquei curiosa e resolvi ler, mas já pensando “Só quero ver, não vai sair nada de útil, pela abordagem do título …”; e vc me surpreendeu imensamente, seu texto ficou muito bom e muito inteligente … a mídia hoje cria padrões de beleza que simplesmente não existem, deixando as mulheres ‘mortais’ de lado … que modéstia parte, têm muito mais que uma bunda turbinada, têm corpo e alma d verdade …
\o/
Grande Alê!!! Mandou muito bem. eu vejo mulher pelada todo dia. gosto bastante mesmo do que vejo no espelho – e olha que já não tenho 20 rsrsrs ;)
Vai pro Achados e será devidamente indicado a todas as Luluzinhas. A gente concorda com vocês em gênero, número, grau e tamanho. Haja paciência…
bj
Dessa vez eu não pude ficar apenas lá no reader, tive que vir até aqui para comentar porque eu concordo com você. As mulheres e homens também que vemos por aí parecem feitos recentemente. Tudo agora sofre os danos dos softwares e viva a ilusão da perfeição. Imperfeições são corrigidas (celulites, estrias, gordurinhas, rugas…) e o ser humano passa a ser o modelo do carro do ano, se olhar de frente, são todos iguais, só muda o símbolo da montadora. No caso dos homens e mulheres muda o nome, mas nem todos trazem eles impressos na pele.
Adorei seu texto carissimo, grande abraço
Através do eusigo.com [#livros] cheguei a você e passei a seguí-lo no Twitter. Não me arrependi. GENIAL!!! Parabéns.
Muito bom! Pena esse comercila do google no meio do post! Quase achei que estava na página errada…
bjs
Patricia,
obrigado! De fato, os anúncios são o que garantem que eu continue a escrever o que escrevi. É de certa maneira irônico :-)
Abraços do Ale.
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