maracujá

Quem associa a infância à época mais feliz da vida não está se lembrando de Guilherme Bastos. Quanta angústia cabia naquela pequena e pobre alma pueril!

Num belo dia de seus primeiros anos, cometeu a fatal burrada de demonstrar satisfação quando sua mãe lhe serviu de pão com requeijão e suco de maracujá. Para quê. Para o resto de seus dias escolares, estava decidida a boia que levaria em sua lancheirinha. Fizesse chuva ou sol, seja lá em que estação, em tempos de guerra ou de paz, pão com requeijão e suco de maracujá era o que ele tinha de carregar e comer.

Nos primeiros meses, temeroso em relação à figura autoritária da mãe, engolia a ração sem queixas. Mas quando a náusea lhe forneceu a suficiente coragem para uma tímida averiguação da possibilidade de mudança alimentar, teve de ouvir um discurso de meia hora sobre sua deplorável ingratidão, perante os pais e perante Deus, haja vista todo um mundão de crianças que não tinham o que comer.

Como a privação é a mãe da criatividade, e irmã da paciência, viu naquelas moedinhas do troco do cigarro que o pai mandava comprar (os tempos eram outros) a possibilidade de um dia de redenção. Sim, bastava um dia. Foram três semanas avaras de acúmulo de centavos para poder esvaziar sua lancheira da tranqueira de sempre e preenchê-la clandestinamente com um glorioso big mac.

Até hoje, Bastos não sabe se sua mãe, sabe-se lá de que jeito, descobriu seu sulfuroso plano e teve a ver com os fatos que se seguiriam. Chegada a hora do recreio, a inspetora anunciou o dia de troca de lanche com o amiguinho, brilhante lição pedagógica de partilha e desapego material. Qual um rei se despojando de secreta coroa, teve de entregar seu lanche a um rapaz mais novo, de olhos remelentos e famintos. A felicidade do pirralho ao receber o sanduba lhe pareceu desproporcional, mesmo se tratando de um sublime big mac. Só compreendeu tudo quando se lembrou de checar o que havia sido posto, como troca, em suas mãos: pão com requeijão e suco de maracujá.

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Sobre o autor: André Simões

André Simões, 29, jornalista, cronista, mestre em Estudos Literários pela UEL e "cliente VIP número 1 do Santoíche", conforme atestado em condecoração solene promovida pelo proprietário da lanchonete. Em 2010, publiquei meu primeiro livro de crônicas, "A Arte de Tomar um Café" (AtritoArt Editorial/Promic). Interessados em adquirir esta pérola da literatura brasileira podem entrar em contato pelo e-mail adfsimoes@gmail.com. Esquema Radiohead de transação comercial: pague o quanto quiser mais as despesas de postagem.