Com o novo de Tim Burton, Sweeney Todd, o tema da vingança volta à tona, com todas as suas implicações éticas e trágicas.
De fato, a tragédia de vingança tem origens muito antigas e variações em torno de algumas caracterÃsticas básicas.
Como a conhecemos através de Hamlet, de Shakespeare, surgiu provavelmente pela pena do autor Thomas Kyd. Contemporâneo de seu colega mais famoso, escreveu A Tragédia Espanhola, possivelmente a peça que primeiro traz o gênero para a tradição escrita.
Estima-se que foi Thomas Kyd também quem escreveu uma versão anterior de Hamlet, chamada Ur-Hamlet, por volta de 1587. Ur-Hamlet, porém, desapareceu sem deixar vestÃgios e os estudiosos de dramaturgia shakespeariana só fazem especulações a seu respeito.
Isso tudo segundo o livro Reflexões Shakespearianas, que reúne ensaios da especialista Bárbara Heliodora, e que no momento folheio.
A tragédia de vingança teria alguns temas recorrentes, todos observáveis em Hamlet e, de alguma forma, em versões anteriores e posteriores da fábula:
- demonstração ao público do que causou a necessidade da vingança: no caso de Hamlet, o assassinato do pai. O pedido de vingança costuma ser feito por um fantasma, recurso muito usado por Sêneca (4 a.C – 65 d.C)
- compromisso do vingador com sua tarefa
- planejamento da vingança
- hesitação por parte do vingador
- ao menos uma confrontação entre protagonista e antagonista
- loucura real ou fingida
- realização da vingança
- catástrofe final
Resumindo: fato gerador da necessidade de vingança, execução da vingança, todos morrem. Menos alguns personagens secundários.
De acordo com Bárbara Heliodora:
Se o crime e sua vingança não forem a essência da trama, esta não pode ter o rótulo de “tragédia de vingança, gênero especÃfico. O que une a estrutura toda da peça é o tema – os elisabetanos não pensavam em unidade de tempo, lugar ou decoro. O que acontece tem de ser relevante para o tema central, e é só isso que é exigido.
O fato é que existem diversas estruturas básicas diferentes e em literatura é difÃcil escapar delas. Se não impossÃvel. Criar uma nova é notavelmente raro.
O espaço para a originalidade de um autor fica entre os trilhos conduzidos por esses padrões: os gêmeos separados na infância, o retorno da mulher expulsa de uma cidade, a volta daquele que todos julgavam morto… esses e muitos outros você já deve ter visto em telenovelas e obras de melhor qualidade.
Mas um que me parece bastante original, no entanto, é o tema do plano infalÃvel, criado pelo irmão de Mauricio de Sousa, e usado à exaustão nas revistas da Turma da Mônica:
- Cebolinha tem a idéia de um plano para derrotar a Mônica
- Cascão observa o olhar de Cebolinha, que indica que ele tem um novo plano, e tenta fugir
- Cebolinha convence Cascão de que desta vez o plano é infalÃvel e ele decide participar
- Execução do plano
- O plano dá certo
- Cascão comete algum erro e entrega o plano na última hora e Mônica descobre
- Os dois apanham
- Recomeça o ciclo
O padrão é esse e nunca vai mudar. Pode-se deixá-lo, no entanto, mais genérico, a fim de que seja aproveitado em outro tipo de literatura:
- Um insurgente tem um plano para depor uma força dominante
- Outros possÃveis insurgentes relutam em participar
- Todos são convencidos da potencialidade do plano
- Execução do golpe
- Êxito do golpe
- Um dos insurgentes, justamente aquele que não queria participar de inÃcio, de forma inocente acaba colocando tudo a perder
- Todos sofrem as sanções decorrentes da tentativa de golpe
- Recomeça o ciclo
Dessa forma mais genérica talvez seja até possÃvel descobrir se, afinal, essa estrutura é de fato original.
De que funciona literariamente creio que ninguém mais tem dúvida.











