Sou do tempo da novela. Vi vinhetas com recadinhos à ditadura, vi muitos retratos de muitos Brasis, assisti à orgulhosa primeira exibição de Roque Santeiro, vi Amor com Amor se Paga, vi (mesmo sem entender direito) Malu Mulher, vi Janete Clair, Dias Gomes,vi.

Há algum tempo sucumbi ao charme da tv fechada.

A novela, essa que expressava uma tentativa da sociedade de se enxergar, mostrar-se, identificar-se, começou a ceder lugar ao mercado e isso significou núcleos numerosos de artistas, histórias pouco complexas, conflitos quase-conflitos, propagandas sem fim, histórias compradas e vendidas.

Já sei! Vai torcer a cara aí e dizer “eu não assisto mesmo” e fazer campanha nas redes sociais contra, mas, sinto dizer, ao cabo das horas: você também é isso.

Uma novela, nunca vai ser um livro, uma leitura, um leitor. Longe disso, e nem sei se é esse o propósito.

Um livro lido deixou de pertencer ao autor e é uma nova história que o leitor tomou para si mesmo. É por isso que os filmes sobre livros no geral decepcionam, você é o autor, roteirista, diretor, figurinista do livro que você leu e nunca, em lugar algum, alguém vai alcançar em seu íntimo toda aquela emoção.

Mas, voltemos aos fatos do cotidiano, à pieguice dos dramas da vida urbana, os tipos, estereótipos, fatos e factoides que nos entorpecem na telinha.

Depois, que me tornei uma leitura mais crítica, vi as novelas com outra perspectiva. Tento compreender os conflitos, entender o papel dos personagens, as saídas da trama, e percebo o que pode, o que não pode, o que cabe, o que não cabe; sem paixões pelos personagens, mas com voracidade de quem gostaria de escrever tudo aquilo, de um jeito ou de outro.

Antes de mim a novela já fazia parte do cotidiano das pessoas, desde os tempos do rádio, a emoção de ver-se retratado, ter a sua história contada nas mãos de um autor sempre teve tremendo encanto na vida das pessoas. O herói é importante, o vilão é imprescindível e o pano de fundo é o que nós somos, onde nós estamos… Depois de mim, a novela ainda faz parte.

Ah! Você gosta de série, só assiste à tv fechada? Humm! Deixa eu ver: personagens, conflitos principais, conflitos secundários, personagens que precisam ser mortos na série porque saíram da trama, cotidiano, retratos, exageração, sonhos, sentimentos, continuidade: é acho que isso também é novela.

Há poucos dias a mídia vem noticiando que o autor João Emanuel Carneiro colocou um interessante artifício entre os personagens de Nina (a mocinha que voltou para se vingar e nem é tão mocinha assim, aliás, o maniqueísmo está out) e Tufão (o jogador de futebol de sucesso, agora aposentado). Nina dá pistas das desventuras de Tufão por meio de livros importantes da literatura que indica.

Muito interessante o artifício.

Primeiro, por ser um veículo das massas, cria uma certa propaganda pela leitura.

Segundo, o personagem mostra evolução clara, tanto no aspecto físico, quanto psicológico, ao passo que cada vez lê mais.

Outro aspecto que me chamou atenção foi a peculiaridade dos personagens que vivem no lixão.

Lendo a entrevista de José de Abreu,  para lá de excelente em seu papel, vi que a fonte para a construção dos pobres que vivem ali, vem de ninguém mais, ninguém menos que Dostoiévski.

Mais uma vez, ponto a favor da literatura.

Não estou falando que é para parar de ler e sair correndo a assistir novelas, mas que, lendo mais, você pode, inclusive, não assistir pelos motivos certos, ou criticar, com sua própria  crítica e não a das massas.

E, pensando bem, a vida corre mais no fluxo da piequice das novelas, que nas tramas de grandes óperas.

Qual será mesmo o próprio livro indicado ao Tufão?

Enquanto isso, divirta-se baixando os livros lidos por Tufão em Avenida Brasil

Crédito da imagem

Crédito da imagem de destaque

Sobre o autor: Roberta Fraga

Crio seres imaginários, escrevo contos, costuro histórias.