Um dos problemas dos livros é que quando você os têm em excesso e não é exatamente organizado – meu caso – você pode perder algum, possivelmente aquele de que gostaria de citar certa passagem em um artigo, em meio aos tantos outros.
Foi o que aconteceu com o Borges Oral, que então líamos em voz alta eu e Júlia na cama.
É um livro com a transcrição de cinco palestras que o escritor argentino proferiu em uma universidade.
A questão é que para encontrá-lo não há Google que resolva. Mas ele deve reaparecer em breve.
Eu queria citar textualmente um trecho a que me referi em um artigo passado. Justamente o que fala sobre o livro fechado ser um tijolo feito de papel e cujas letras agrupadas lado a lado nada significam.
Ao abri-lo, no entanto, deixamos entrar em nossa casa, em nossa vida, aquelas palavras, aquela pessoa que as escreveu. Mais que isso. Na opinião de Borges, nos tornamos aquela pessoa. Ele diz, creio que não sem alguma emoção, que nos tornamos Shakespeare, nos tornamos Homero, nos tornamos, até, Jorge Luís Borges (embora, é claro, ele não se refira a si mesmo na tal palestra).
Ele segue, dizendo que um grande livro nunca é o mesmo que o da época em que foi escrito. Se lemos Hamlet, lemos toda a história da humanidade, do momento em que o bardo inglês escreveu a peça até aquele instante em que abrimos o livro.
Mas, como dizia, se o livro não é assim aberto, a magia não acontece e, de fato, ele se torna um tijolo.
E as bibliotecas são assim.
Algumas são feitas de tijolos e, outras, de janelas. Tudo depende do pedreiro.
Bibliotecas também tem muito a ver com fetiche. Para explicar, a idéia recorro à acepção sexual do termo, recurso já usado por outro autor em dois artigos (1 e 2).
Mas vou deixá-los com os textos de Alex Castro por enquanto (como dizia aquele sábio: como tal pessoa é inteligente, pois pensa exatamente como eu) e desenvolverei essa mesma idéia do livro como objeto de fetiche em outra ocasião.










