Em 1948, George Orwell conclui seu romance 1984, pelo qual estabeleceu sua extraordinária e precisa visão de como seria o mundo, principalmente no que tangeria as relações societárias e políticas da humanidade. Um mundo onde todos teriam suas atitudes, opiniões, sentimentos e pensamentos vigiados o tempo todo e viveriam sob constantes direcionamentos do presente por meio de manipulações do passado, pré-estabelecendo o futuro.

Pouco esforço é necessário para identificarmos familiaridades, quando não igualdades, claras entre as profecias de Orwell e a nossa realidade. Contudo, são vários os “Grandes Irmãos” que nos acompanham incansavelmente, e esta expansão tem sido inevitável acontecendo em uma progressão geométrica.

Com o advento da internet, muitas informações, anteriormente distantes e difíceis, estão apenas a alguns cliques de distância. Isto é maravilhoso e sua utilidade incontestável; mas – sempre tem o “mas” –, o inverso é válido. Nossas informações sempre estiveram a alguns cliques (ou processamentos) de distância dos atuais “Grandes Irmãos”.

A partir de 1º de março, passou a vigorar a nova Política de Privacidade da Google que se aplica a todos os seus serviços e, consequentemente, aos seus consumidores. Grandes debates estão acontecendo pela internet e meios governamentais a fim de identificar as reais validades desta nova política sobre os direitos de privacidade de cada usuário. E isto está dando pano para manga. Em linhas gerais, a Google está apenas deixando claro que vai sim rastrear as informações, analisar os comportamentos, acompanhar os movimentos e, por que não, pensamentos de seus usuários.

Invasão de privacidade? Penso que sim. Mas em hipótese alguma deveria ser uma novidade. Estas coletas de dados e análises comportamentais sempre foram feitas por diversas outras empresas. Sempre tivemos estes “Grandes Irmãos” a nos observar, principalmente na internet. Ou seriam benevolentes as empresas que preparam e disponibilizam tantos serviços e conteúdos gratuitamente ao mundo, apenas esperando recuperar os custos com os anúncios? Progresso? Não, a Google está apenas sendo a primeira a colocar de forma aberta e com nosso consentimento: “Sim, vamos monitorar vocês!”.

Não sei se sofro de alguma síndrome de perseguição ou fui muito influenciado por Orwell, mas há muito comento com minha família e meus amigos sobre os cuidados que temos de ter ao usar e divulgar nossas informações na internet e sobre esta monitoração que sofríamos às escuras. Estamos protegidos desta forma? Não, jamais, mas podemos diminuir o impacto. Devemos nos abster da internet? Não! A não ser que desejemos viver como eremitas em busca de alguma graça espiritual.

Temos é que manter este fato em mente e nos precavermos o máximo que pudermos, pois este é o nosso mundo, o mundo de hoje. Somos os alvos e o que podemos fazer é tentar, ao menos, diminuir os riscos; pois, há muito, o “Grande Irmão” está de olho em nós.

Para saber mais sobre a Política de Privacidade da Google, sugiro a leitura da própria política em questão e destas duas reportagens:

E, naturalmente, um link sobre “1984” (que é um dos meus livros preferidos e que muito recomendo):

Sobre o autor: Rafael Castellar das Neves

Nascido em Santa Gertrudes, interior de São Paulo, formado em Engenharia de Computação e um entusiasta pela literatura, buscando nela formas de expressão, por meio de crônicas, poesias, contos, ensaios e romances.