Almeida Júnior: O tempo (s/ data).

Henrique Bernardelli: O tempo (1925).

Nesse periódico vou falar sobre a presença da mitologia grega no campo das artes, utilizada como alegoria.

Nestes dois quadros pertencentes respectivamente a Almeida Júnior – só lembrando que, anteriormente, foi postada sua biografia e também foi feita a análise de um seus quadros (A Leitura) – e Henrique Bernardelli, temos a presença de figuras mitológicas que, são retratadas com certa frequência no campo das artes plásticas.

No primeiro quadro, podemos identificar logo de cara (em primeiro plano) a figura de um ancião; se observarmos atentamente, o mesmo tem uma expressão bem intrigante, na qual parece atentar-se para uma das três moças que está localizada à sua direita.

No seguinte, também podemos encontrar a figura deste mesmo homem (o ancião), assim como as figuras femininas.  Essas três mulheres, existentes nos dois quadros, são dispostas de modo curioso: as que estão em primeiro plano (duas) apresentam mais luminosidade em suas feições – principalmente as de Bernardelli – enquanto as que estão em segundo, apresentam feição obscura e misteriosa.

Mas existem duas personagens no “Tempo” de Bernardelli que não estão presentes no de Almeida: um homem e uma mulher.

Voltando-nos para essas duas figuras, podemos perceber que estão numa espécie de jardim; a mulher oferece uma fruta ao homem, que parece demonstrar receio.

Depois dessa rápida descrição acerca das duas obras, será que vocês sabem o que elas querem dizer ou que elas representam? Sim? Não? Talvez?

Certo…

Para saber o que ambas representam, é necessário que levem em consideração tudo o que foi mencionado desde o início. Vamos para a análise!!??

Bom, a figura do ancião, segurando a ampulheta ou as ampulhetas (no primeiro quadro), é a personificação do tempo.

E, as três figuras femininas que aparecem nos dois quadros representam as Moiras. Alguém já ouviu falar nelas?

As Moiras, Parcas, ou ainda, Fiandeiras, eram filhas de Zeus e Têmis ou de Nix.

Elas eram responsáveis pelo início e por todo o curso de vida dos humanos, assim como seu fim.

Podiam ser chamadas de: Nona, Décima e Morta ou de Cloto, Láquesis e Átropos, independente dos nomes, suas funções eram, respectivamente: presidir a gestação e/ou nascimento, o desenvolvimento e curso de toda a vida do indivíduo e o decreto de seu fim (morte).

As Moiras, representadas na segunda obra, caracterizam melhor a questão do poder e influência que tinham sobre a vida dos seres humanos, pois, escrevem o destino de cada um deles em livros.

Quanto às figuras masculina e feminina presentes no segundo quadro, podemos dizer que são a composição de Adão e Eva, no jardim do Éden. Eva está prestes a dar o fruto proibido ao companheiro, de acordo com a história da bíblia (Gênesis).

Em suma, o ancião, personificação do tempo, nos mostra Adão e Eva momentos antes de comerem o fruto proibido, que os privou da vida eterna e os colocou como meros mortais submetidos ao ciclo da vida, onde entram em cena as Moiras/Fiandeiras/Parcas, que a partir de então, assumem o controle da vida destes e de sua geração.

O “Tempo” de Almeida aparece de forma mais simples, só associando o tempo ao ciclo de vida dos seres humanos, que é representado pelas figuras femininas (moiras).

Detalhe: Só gostaria de ressaltar um fato bastante curioso e um tanto incomum no quadro de Henrique Bernardelli: o uso do mitológico (pagão) em conjunto com o tema bíblico, isso é feito através das figuras do velho (tempo), das três mulheres (moiras) e do casal (Adão e Eva).

O recurso utilizado nos dois quadros é chamado de alegoria – dá um pouco de trabalho na hora de interpretar, mas essa é a graça! A alegoria é uma figura de linguagem usada tanto nas artes plásticas, como na literatura.

No próximo post vou falar da alegoria e dar mais exemplos sobre a presença de figuras mitológicas no campo das artes.

Sugestões, perguntas, e críticas fiquem à vontade!!!!

Até a próxima!!!!

Sobre o autor: Dayane Santos

Apaixonada por música, poesia, dança e artes em geral, é formada em Letras e, atualmente, estudante de História da Arte. Dentre os cursos já realizados estão: História da Arte (Extensão) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC); História da Arte (séc. XIX e XX) e Arte e Fotografia (Pinacoteca do Estado de São Paulo); Arte, Arte Sacra e Bens Culturais (MAS), entre outros. Atuou como voluntária por três anos no Programa Escola da Família (E.E. Prudente de Moraes), ministrando o Projeto Português para Estrangeiros, Black Dance, Almoço Comunitário, Contando uma História, etc. Também é a idealizadora do Blog Psyché.