A opinião dos escritores Cristóvão Tezza e Marcelino Freire sobre o livro com “erros” de português

Em 1993 tive aula com o Cristóvão Tezza, no primeiro ano da faculdade de Jornalismo na UFPR. Ele usava o livro Prática de Texto – Língua Portuguesa Para Nossos Alunos, talvez o único que guardo daquela época. Nessa obra – em co-autoria com Carlos Alberto Faraco, então reitor da UFPR – Tezza já falava sobre as diversas variantes da língua, sobre a necessidade de se reconhecer as variantes da língua falada e escrita. Além de ser ganhador de diversos prêmios literários, Tezza é um grande estudioso da língua e dos processos de comunicação em que ela está envolvida.

Merece ter sua opinião muito respeitada:

Reproduzo aqui, a transcrição resumida que se encontra na página do YouTube:

Os escritores Marcelino Freire e Cristovão Tezza participaram nesta semana do programa “Entre aspas”, apresentado por Mônica Waldvogel na GloboNews. Com bom humor, os dois escritores rechaçaram a tese da Globo (e da velha mídia), que, a partir de trechos retirados do contexto, ataca o livro “Por uma vida melhor”, adotado pelo Ministério da Educação para turmas de jovens e adultos.

Quando a apresentadora fala em “regra errada do português”, imediatamente Tezza, professor aposentado da UFPR, a interrompe e a corrige: “Variedades não padrão”.

Mônica responde: “Estamos tucanando aqui”. Ao que Tezza rebate: “É um conceito linguístico esse. Todas as línguas do mundo funcionam assim, são variedades. [...] A diferença entre dialeto e uma língua é que uma tem exército, e a outra não. É a história das línguas.”

Marcelino Freire cita o poeta Sérgio Vaz: “Quando a gente diz nós vai, é porque nós vamos”.

Tezza explica:

“Quando você constrói uma gramática escrita, você escolhe formas, passa a escrever essa formas, passa a defendê-las. E elas passam a ser o certo. E aí se começa a estigmatizar o que não está daquela forma. Isso é construção histórica das línguas padrões [...].

O conceito de variedade linguistica é fundamental, não há mal nenhum em mostrar aos alunos, mesmo dos primeiros anos, que a língua é um conjunto de variedades, inclusive para trabalhar com a diferença e a importância da norma culta. O que não precisa é humilhar ninguém para fazer isso.. é um processo esmagador, a escola tem muito poder, o aluno chega lá, só fala a variedade dele, o professor vai olha, você é burro, senta ali no milho… não. Vamos trabalhar de outra forma. É uma questão didática.”

“Que conselho vocês dão aos que estão tão preocupados?”, questiona a apresentadora, ao final do programa.

É a deixa para Freire arrematar:

“Vão de Adoniram Barbosa: “Arnesto nos convidou / prum samba ele mora no Brás / Nóis fumo, num encontremo ninguém…” [mais risos]

Postado em Educação.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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