girafa

Uma girafa morreu em Johannesburgo nesta semana, vítima da imprudência humana ao lidar com espécie tão delicada e pescoçuda. Transportada em caminhão para ser levada ao veterinário, bateu com a cabeça em um viaduto, não resistindo aos ferimentos. Irônico como uma viagem planejada para melhorar sua saúde acabou sendo a causa da morte da girafa, girafa que nem nome tem, ou ao menos não o teve divulgado.

Totó, Rex, Fifi – são nomes clássicos para os cães. Qual seria o nome da girafa morta? Na tradução dos textos das agências que relataram a tragédia, os termos variáveis estão sempre no feminino, “morta”, “ferida”, opção de redação óbvia por causa do gênero do substantivo que distingue o animal. Mas esta girafa morta poderia muito bem ser um varão, ou ainda ser um animal que recusava rótulos de gênero. Gosto de pensar na girafa morta como Gina – meu nome mental para todas as girafas, seja lá qual for o sexo delas.

O curioso é que, juntamente com Gina, havia outra girafa no caminhão, e esta saiu ilesa da travessia sob o viaduto. Mais esperta?, mais ágil?, por sorte estava procurando uma moeda no chão no momento fatal para sua companheira?

Triste ventura a das girafas. Durante anos, ouvimos de nossas mães para não colocarmos a cabeça para fora da janela do carro, ou a teríamos arrancada. Poucos são os filhos que seguem o conselho materno; afinal, colocar a cabeça para fora do carro é divertido (quando não se é mais criança a diversão diminui um pouco), e as chances de aparecer repentinamente algo que arranque sua cabeça são pequenas caso os seus sentidos, principalmente a visão e a audição, estejam funcionando regularmente. Já as girafas, mesmo sendo filhas exemplares, que jamais contestariam as ordens maternas, não têm como manter seus colossais pescoços dentro de um veículo que também não seja (o que é bastante raro) colossal.

Assim como é colossal a estupidez do responsável pelo transporte dos animais, Deus do céu. Quando compramos uma caixa de ovos no supermercado, já há toda uma preocupação em acomodá-la adequadamente, dirigir com cuidado. Imagina se você é incumbido de transportar girafas!, o mínimo que se pode esperar é um pouco de consciência sobre o que se está fazendo. Uma pessoa que não tem capacidade nem para cuidar de uma girafa deveria ser interditada juridicamente e ter seus direitos civis limitados. Não tem capacidade para votar, casar, dirigir, nem deve ter liberdade para comprar sorvete.

A girafa existe sem nome, sem razão, servindo a seu inglório e involuntário propósito de entreter humanos, tendo como ápice da vida o momento da morte, tornada notória pelo aspecto tragicômico. E os que a sobrevivem acham triste, mas seguem em seus rumos inalterados. O quanto de girafa há em você, leitor amigo, meu irmão? E o mais importante: no caminho de volta do veterinário, qual foi a condição de transporte da girafa sobrevivente?

Sobre o autor: André Simões

André Simões, 29, jornalista, cronista, mestre em Estudos Literários pela UEL e "cliente VIP número 1 do Santoíche", conforme atestado em condecoração solene promovida pelo proprietário da lanchonete. Em 2010, publiquei meu primeiro livro de crônicas, "A Arte de Tomar um Café" (AtritoArt Editorial/Promic). Interessados em adquirir esta pérola da literatura brasileira podem entrar em contato pelo e-mail adfsimoes@gmail.com. Esquema Radiohead de transação comercial: pague o quanto quiser mais as despesas de postagem.