O que mais me assusta na moralidade dos dias de hoje – na suposta moralidade dos dias de hoje – é que para sua defesa lança-se mão quase sempre de instrumentos imorais.

O apedrejamento e o linchamento, psicológico e físico, só são diferentes entre si porque em um deles não enxergamos os paus e pedras.

Porém, basta que surja um pau ou uma pedra para que a primeira modalidade se transforme entusiasticamente na segunda.

E se os instrumentos para o resguardo de determinado costume são imorais só posso supor que esse costume também é imoral. O ambiente onde ele se pratica é imoral. Aqueles que o praticam são, em verdade, imorais.

Assim, quando praticada em grupo, a moralidade se converte muito mais facilmente em vício que em virtude. A multidão é quase sempre moralista.

A aprovação e a proteção do grupo são suficientes para o nascimento simultâneo de mil santarrões, com dedos a apontar para a forca, a cruz, a fogueira, a guilhotina ou para seja lá o instrumento moralizante favorito da época. O YouTube, talvez? O Twitter? O seu blog quem sabe?

O maior prodígio relatado na Bíblia não foi fazer um morto acordar, mas conter um bando de moralistas prestes a apedrejar uma mulher.

É assustador, nas multidões, como as responsabilidades individuais não se somam e o cuidado com os indivíduos que a compõe não se intensifica. Ao contrário. As responsabilidades se diluem, os cuidados se esvanecem.

Nos eventos que se deram nesta semana, dizendo respeito ao comprimento maior ou menor da saia de uma estudante, não assistimos apenas ao linchamento moral de um desses indivíduos por conta de centímetros de pano. Assistimos à comprovação de que nossa educação está formando não seres humanos, mas multidões.

De um modo simples, pelo que vi, eu entenderia que é justificável agredir em bando uma pessoa se ela estiver, sob o ponto de vista desse bando, trajada inadequadamente.

O que seria de Leila Diniz (1945-1972) nos dias de hoje?

Em um ambiente onde deveriam reinar as luzes do discernimento, viu-se as trevas da ignorância. Temo não se tratar do caso isolado de uma instituição de ensino de terceiro grau.

Ultimamente, prefiro, com léguas de vantagem, ver uma multidão em uma orgia a uma multidão provinda de uma universidade.

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!