A moral das multidões
1 de novembro de 2009 | Publicado na Categoria Educação | 16 Comentários »O que mais me assusta na moralidade dos dias de hoje – na suposta moralidade dos dias de hoje – é que para sua defesa lança-se mão quase sempre de instrumentos imorais.
O apedrejamento e o linchamento, psicológico e físico, só são diferentes entre si porque em um deles não enxergamos os paus e pedras.
Porém, basta que surja um pau ou uma pedra para que a primeira modalidade se transforme entusiasticamente na segunda.
E se os instrumentos para o resguardo de determinado costume são imorais só posso supor que esse costume também é imoral. O ambiente onde ele se pratica é imoral. Aqueles que o praticam são, em verdade, imorais.
Assim, quando praticada em grupo, a moralidade se converte muito mais facilmente em vício que em virtude. A multidão é quase sempre moralista.
A aprovação e a proteção do grupo são suficientes para o nascimento simultâneo de mil santarrões, com dedos a apontar para a forca, a cruz, a fogueira, a guilhotina ou para seja lá o instrumento moralizante favorito da época. O YouTube, talvez? O Twitter? O seu blog quem sabe?
O maior prodígio relatado na Bíblia não foi fazer um morto acordar, mas conter um bando de moralistas prestes a apedrejar uma mulher.
É assustador, nas multidões, como as responsabilidades individuais não se somam e o cuidado com os indivíduos que a compõe não se intensifica. Ao contrário. As responsabilidades se diluem, os cuidados se esvanecem.
Nos eventos que se deram nesta semana, dizendo respeito ao comprimento maior ou menor da saia de uma estudante, não assistimos apenas ao linchamento moral de um desses indivíduos por conta de centímetros de pano. Assistimos à comprovação de que nossa educação está formando não seres humanos, mas multidões.
De um modo simples, pelo que vi, eu entenderia que é justificável agredir em bando uma pessoa se ela estiver, sob o ponto de vista desse bando, trajada inadequadamente.
O que seria de Leila Diniz (1945-1972) nos dias de hoje?
Em um ambiente onde deveriam reinar as luzes do discernimento, viu-se as trevas da ignorância. Temo não se tratar do caso isolado de uma instituição de ensino de terceiro grau.
Ultimamente, prefiro, com léguas de vantagem, ver uma multidão em uma orgia a uma multidão provinda de uma universidade.

Pois é, simplesmente dá para assustar mesmo…
Até mesmo entre as pessoas que não aprovaram o que os alunos fizeram, ouvi comentários muito preconceituosos:
- Se colocou um vestido curto é porque queria atenção. Conseguiu.
- Concordo que eles exageraram, mas ela deve ser piranha mesmo.
O engraçado é que nossa sociedade se diz tão liberada sexualmente. No discurso, é desejável que a mulher seja bi, que se exponha, que tenha muitos parceiros. Ao mesmo tempo, para denegrir uma mulher, basta acusá-la de ser prostituta. Fico pensando que há algumas décadas atrás, poderia ser uma mulher separada. Ou lésbica. Ou até mesmo o fato de uma mulher freqüentar uma faculdade.
Não sei o que me incomoda mais, o alvoroço causado por um vestido ou o pensamento coletivo de que puta é uma palavra ofensiva.
O mal do nosso tempo é a intolerância. Parece que perdemos o sentido de comunidade, de viver em grupo respeitando as diferenças… Triste, muito triste.
eu comia
Por coincidência assisti hoje na Net “O dia do gafanhoto”, produção americana sobre os astros de Hollywood: na estréia de um filme,na rua, há uma cena da multidão enfurecida com um assassino que acaba sendo linchado. A multidão logo esqueceu os astros que chegavam para a estréia.Pensei: é justiça ou não?
Quando as pessoas atuam em grandes grupos sentem-se mais fortes e livres de responsabilidades, é um comportamento até normal psicologica e biologicamente falando. É engraçado, sempre cito uma frase de Jung, “multidões raramente se reúnem para boas ações” (algo assim). Estou acompanhando esse caso com interesse quase científico, quero tentar entender e a possibilidade de uma multidão enfurecida ter sido criada por alguns não me desce. Esse comportamento de multidões é explicado na psicologia o caso é que nessa situação uma saia causou isso, por isso que ainda não entendi mesmo! Bom post Alessandro, um abraço!
Lembrar da Leila Diniz é sinal de que as coisas não mudaram tanto assim. Ela sofreu bastante perseguição após sua entrevista ao Pasquim, onde falou abertamente da sua vida sexual. Até ouviu de um executivo da Globo que não a chamava por que não tinha papel de puta nas novelas. E o engraçado é que hoje ninguém assume a autoria da frase.
Se a roupa dela era adequada ou não ao ambiente não é a questão e sim a reação do “bando”…falo isso pq assistindo ao Fantástico hoje eles fizeram a enquete com a pergunta se a aluna podia ou não usar determinada roupa.Oras!A questão pra enquete teria que ser outra…”O que esse bando faz numa Universidade?Que tipos de pessoas moralmente estamos formando???”
Realmente,cada vez mais me assusto com as atrocidades animalescas que o ser humano ainda é capaz de fazer.
Concordo plenamente com vc Alessandro!
A gente passa tantos anos da nossa vida estudando pra quê afinal de contas? Nossos pais não tiveram tanta instrução quanto nós e não faziam isso.