Da noite do dia 6 para o dia 7 de dezembro de 1912, Franz Kafka escreveu para Felice Bauer, que mais tarde veio a ser a sua noiva, uma carta iniciada assim: “Querida, agora ouça, minha pequena história está terminada”. Era o livro “A Metamorfose”, que este mês completa cem anos – ainda que tenha sido publicado somente em 1915.

Quando eu estava no terceiro ano do ensino médio, eu costumava chegar atrasado – apesar de morar a apenas duas quadras do Colégio; talvez, aliás, justamente por morar tão perto eu acordasse em cima da hora –, e se o aluno estivesse uns dez ou mais minutos atrasado não podia entrar para a primeira aula, tinha que ir para a biblioteca e lá esperar até 8h20, quando podia então ir para a sala, para a segunda aula.

Eu tinha 17 anos e havia lido até então menos do que hoje eu leio em um ou dois meses. Em um desses dias de atraso fui para a biblioteca e lá tendo que permanecer eu decidi dar uma olhada nas estantes. Passando rapidamente o olhar sobre os títulos, um logo me chamou a atenção: “A Metamorfose”. Peguei. Li a sinopse e li ali mesmo as primeiras páginas. Levei-o para casa e li rapidamente. Foi a entrada para um novo mundo: desde então comecei a ler mais, a ler muitos livros, a ler vários autores, a ler de verdade.

Não parei. Outro dia, atrasado novamente, descobri Carl Sagan. Fui ler Machado de Assis para em seguida ler Lolita Pillé, passando desta para Truman Capote e depois para Hermann Hesse. Devagar fui aprendendo a ler, a escolher o que ler, a separar o bom do ruim (ah: o “bom” para mim, o “ruim” para mim), a ter um olhar crítico. Fui (e ainda estou) aprendendo a ler.

Já li “A Metamorfose” outras três (ou quatro?) vezes, e sei que ainda o lerei muitas vezes e que será sempre incrível. Hoje leio muito (no ônibus, na fila, em algum intervalo, às vezes antes de dormir) e tudo começou naquele dia em que, atrasado para aula, metamorfoseei-me junto com Gregor Samsa – mas não em um inseto monstruoso, e sim apenas em um leitor.

 

A metamorfose que “A Metamorfose” provoca não me é algo exclusivo e é fácil perceber a influência desta “pequena história”. Este livro alcançou Salman Rushdie [1], Haruki Murakami [2], José Saramago (principalmente em “Ensaio sobre a cegueira” [3]), Jorge Luis Borges, Albert Camus e muitos outros, dos quais alguns eu listo aqui:

  • O diretor (e também autor e ator) de teatro Edson Bueno diz ter sido apresentado ao livro no segundo ano de Artes Cênicas e que a sua leitura contribuiu muito para que ele decidisse ser artista de teatro. [4]
  • O ator Caco Ciocler, que já encenou uma adaptação do texto de Kafka “A Construção” para o teatro, diz sobre a sua relação com o escritor: “Meu primeiro contato foi com 15 anos, lendo A Metamorfose. Lembro do susto!” [5]
  • Lourenço Mutarelli, quadrinista, escritor (é seu o livro, que virou filme, “O Cheiro do Ralo”), ator, dramaturgo e algumas coisas mais, diz que achava muito chato ler até ser apresentado, aos 14 anos, ao livro “A Metamorfose”. “Era um diálogo profundo comigo, com o mundo extremamente sombrio no qual eu vivia. […] filho de policial, durante o regime militar, estudando em colégio de padre. Então, eu tinha quase certeza: o Kafka me entendia profundamente”. [6]
  • Modesto Carone estudava letras anglo-germânicas na USP quando leu o texto “Diante da Lei”. “Lá pelos 18 anos, eu li “A Metamorfose” e passei a noite em claro”. [7] Ele começou a traduzir trechos curtos e pequenos textos e hoje, além de escritor e ensaísta, é o principal tradutor de Kafka para o Brasil.
  • O escritor de “A parede no escuro” e de “Enquanto água”, Altair Martins, diz que foi a mãe de um amigo seu, bibliotecária, quem lhe apresentou “A metamorfose”. “Talvez ela tenha enxergado: vou salvar uma alma. E disso eu fui criando uma vontade escrever, fui evoluindo nesse mundo. Isso me tornou inventivo de tal maneira que eu resolvi escrever, desde muito cedo”. [8]
  • José Castello, jornalista, cronista, escritor de “Ribamar” e outros livros, leu em francês “A Metamorfose”, por indicação do professor de literatura francesa, e ficou abalado. “E cada vez que leio me impressiono muito, eu acho um livro maravilhoso”. [9] (“Ribamar”, aliás, surge, de certa maneira, a partir da forte influência de “Carta ao Pai” sobre o autor [10])
  • Como eu já escrevi no meu primeiro post para o Livros e Afins, Gabriel García Márquez decidiu ser escritor após ler “A Metamorfose”. [11]
  • Valter Hugo Mãe, escritor de “a máquina de fazer espanhóis” aponta em Kafka a sua maior influência, tendo lido “A Metamorfose” por volta dos 15 anos [12], quando “era miúdo ainda e não estava à espera que se pudesse criar um universo tão visível só com palavras”. [13]

Sobre o autor: Raul Maciel

Estudo Ciências Econômicas e não descobri qual é o meu grande talento (sim, ainda espero ter algum). Cheiro livros, jogo futebol e gosto do ponto e vírgula; ainda que não saiba utilizá-lo. Andando sozinho me policio para não pisar nas linhas da calçada enquanto penso em alguma coisa sobre coisa nenhuma.