Atreiú, um dos heróis de a História Sem Fim, do alemão Michael Ende, num dos capítulos precisa passar por três portas para atingir um determinado objetivo. Todas elas são desafios. A segunda é a Porta do Espelho Mágico, em que cada um vê o seu verdadeiro eu. Muitos fogem traumatizados com o que vêem. O jovem Atreiú, um menino caçador do mundo de Fantasia, vê nela, diante de si, o outro herói da história, Bastian, o garoto que lê o livro de que Atreiú é personagem.
Um rapaz gordo, de rosto pálido – aproximadamente da mesma idade que ele – sentado de pernas cruzadas sobre uma cama feita de colchões amontoados, lendo um livro.
E então, em letras de outra cor – recurso usado na edição para diferenciar a realidade de Fantasia e a realidade de Bastian – está escrito:
Bastian estremeceu ao compreender o que acabava de ler. Era ele! A descrição coincidia em todos os detalhes. O livro começou a tremer em suas mãos. Decididamente, aquilo estava indo longe demais! Não era possível que, em um livro impresso, pudesse estar escrito algo que só se referia àquele momento e a ele.
É tocante a forma como Ende usa a idéia de que o leitor constrói a história e os personagens a cada leitura.
Atreiú ao olhar no espelho vê o seu verdadeiro eu ou, quem sabe, sua outra forma de ser sem a qual não existiria, a sua contrapartida. Se, naquele instante, Bastian também olhasse em um espelho daquela mesma natureza, talvez visse a Atreiú.
Quem lê coloca muito de si nas palavras que correm sob os olhos e, em troca, empresta muito do seu ser às idéias expressadas pelo autor e à narrativa por ele contada.
Talvez não seja exagerado dizer que o ato da leitura seja uma espécie de simbiose obrigatória. O leitor precisa do livro – e dos personagens no caso de uma narrativa – para existir como leitor e os personagens precisam do leitor para sobreviverem.
Se isso não acontece, esqueça. Esse livro, pelo menos por enquanto, não é para você e, provavelmente, você não é para esses personagens. Os laços biológicos necessários para tal relacionamento não se deram e talvez se dêem apenas mais adiante, talvez nunca. Mas nenhum drama aí. Afinal, ninguém fica chateado que uma lula não se relacione com um mico-leão dourado.
Mas deixando as tergiversações zoológicas, pretendo dizer que Bastian ainda não havia percebido que era aquilo exatamente o que acontecia. Não só é possível que um livro diga respeito a quem o lê como também diga respeito precisamente àquele momento em que ele é lido.
Se eu ler Hamlet, de Shakespeare, hoje, não será o mesmo Hamlet que li aos quinze anos. Talvez o príncipe dinamarquês se espante ao olhar no espelho.
Mas, como o próprio Michael Ende diria, esta é uma outra história e deve ser contada em uma outra ocasião.
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