A leitura como relação simbiótica ou o personagem no espelho
1 de janeiro de 2007 | Publicado na Categoria Livros e afins | 6 Comentários »Atreiú, um dos heróis de a História Sem Fim, do alemão Michael Ende, num dos capítulos precisa passar por três portas para atingir um determinado objetivo. Todas elas são desafios. A segunda é a Porta do Espelho Mágico, em que cada um vê o seu verdadeiro eu. Muitos fogem traumatizados com o que vêem. O jovem Atreiú, um menino caçador do mundo de Fantasia, vê nela, diante de si, o outro herói da história, Bastian, o garoto que lê o livro de que Atreiú é personagem.
Um rapaz gordo, de rosto pálido – aproximadamente da mesma idade que ele – sentado de pernas cruzadas sobre uma cama feita de colchões amontoados, lendo um livro.
E então, em letras de outra cor – recurso usado na edição para diferenciar a realidade de Fantasia e a realidade de Bastian – está escrito:
Bastian estremeceu ao compreender o que acabava de ler. Era ele! A descrição coincidia em todos os detalhes. O livro começou a tremer em suas mãos. Decididamente, aquilo estava indo longe demais! Não era possível que, em um livro impresso, pudesse estar escrito algo que só se referia àquele momento e a ele.
É tocante a forma como Ende usa a idéia de que o leitor constrói a história e os personagens a cada leitura.
Atreiú ao olhar no espelho vê o seu verdadeiro eu ou, quem sabe, sua outra forma de ser sem a qual não existiria, a sua contrapartida. Se, naquele instante, Bastian também olhasse em um espelho daquela mesma natureza, talvez visse a Atreiú.
Quem lê coloca muito de si nas palavras que correm sob os olhos e, em troca, empresta muito do seu ser às idéias expressadas pelo autor e à narrativa por ele contada.
Talvez não seja exagerado dizer que o ato da leitura seja uma espécie de simbiose obrigatória. O leitor precisa do livro – e dos personagens no caso de uma narrativa – para existir como leitor e os personagens precisam do leitor para sobreviverem.
Se isso não acontece, esqueça. Esse livro, pelo menos por enquanto, não é para você e, provavelmente, você não é para esses personagens. Os laços biológicos necessários para tal relacionamento não se deram e talvez se dêem apenas mais adiante, talvez nunca. Mas nenhum drama aí. Afinal, ninguém fica chateado que uma lula não se relacione com um mico-leão dourado.
Mas deixando as tergiversações zoológicas, pretendo dizer que Bastian ainda não havia percebido que era aquilo exatamente o que acontecia. Não só é possível que um livro diga respeito a quem o lê como também diga respeito precisamente àquele momento em que ele é lido.
Se eu ler Hamlet, de Shakespeare, hoje, não será o mesmo Hamlet que li aos quinze anos. Talvez o príncipe dinamarquês se espante ao olhar no espelho.
Mas, como o próprio Michael Ende diria, esta é uma outra história e deve ser contada em uma outra ocasião.
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Minha “tara” sempre foi a deixar claro isso: cada livro é uma experiência necessariamente individual. Mas daí veio a era do Markting e todo mundo começou a ler as mesmas coisas e algo em mim se perdeu…
Resposta: Aguarde. Agora chegou a era do “Search Engine Optimization”. O horror é inesgotável.
Na realidade, todo leitor é, quando lê, o leitor de si mesmo. Marcel Proust.
Resposta: O ato de ler é muito mais completo que o de escrever, pois envolve leitor, autor e texto. É na verdade um labirinto em que esses três elementos – e talvez mais alguns – se entrelaçam. Borges gostaria disso. Ou, melhor, gostava.
É certo que cada pessoa sintetiza as cenas descritas em um livro de forma diferente, uma vez que todo o contexto cultural muda. Isso é claro quando, a partir de algum livro, faz-se uma adaptação para o cinema.
Dou como exemplo “Harry Potter”, que já teve quatro dos seis livros escritos (a saga terá sete) convertidos em filme. Não era do jeito que eu imaginava; ainda assim foi uma forma de enriquecer a narrativa. Mas, de forma contraditória, há também um empobrecimento pois o leitor não imagina tanto quanto antes, mas tem uma riqueza de detalhes que muitos nunca imaginariam.
Resposta: Por essas e outras é que prefiro assistir a um filme como uma outra coisa, sem comparar. Até gosto quando há detalhes totalmente diferentes ou até contrários do que há nos livros. É ousado e, muitas vezes, surpreende. Não vejo a necessidade ou a obrigação de um filme trazer exatamente aquilo que está sugerido em um livro. Cada um – livro e cinema – tem suas limitações e qualidades, não é mesmo?
E eu, que quando vi esse filme, levei um baita susto nessa parte e não entendi nada…
Lembro bem que foi o primeiro filme legendado que eu mesma li. E quase sempre não conseguia chegar ao fim das frases.
Resposta: Eu também não entendi muito bem na hora e, na época, nem fazia idéia de que existia o livro do filme… mas, enfim, agora está bem claro para mim… :-)
E por que não estender esse conceito aos blogs?
Resposta: Não vejo por que não, Lucas. Apesar de, na maioria das vezes, um blog não ter personagens ou o autor ser o personagem, acho que a relação entre leitor e texto continua a existir dessa mesma forma. Perfeitamente estendível.
Livro soberbo esse História sem Fim. Li ainda no ensino médio, numa época em que eu havia me impressionado com o filme. Bem, agora que eu já manifestei o meu fanatismo pelo livro (não pelo autor porque eu não conheço nenhum outro livro dele), sobre o texto, a identifiação do leitor com o personagem principal do livro é tão grande que se torna quase heresia quando o autor mata o personagem principal. Ah, a mesma coisa acontece nos filmes também, e nos jogos de videogame.
É isso.
Resposta: A Júlia me falou que outros livros dele também são bons… e confio muito no gosto dela. Vamos ver mais para frente… agora vou começar minha pós em literatura brasileira e história nacional e terei pouco tempo para ler coisas fora do currículo… rs!
Então, Rui! Não vou dar conta de responder todos os comentários que você fez, pois hoje estou com o tempo meio escasso… quero deixar aqui minha gratidão por sua intensa participação em meu blog, no entanto. Muito obrigado!
Abraço.