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A internet empobrece a língua. Será?

16 de outubro de 2007 | Publicado na Categoria O prazer de escrever | 10 Comentários »

O professor Cristóvão Tezza, de longe, foi o melhor que tivemos naquela turma de 1993 na faculdade de Jornalismo, na UFPR. E nos três anos seguintes. Posso dizer que metade do que aprendi sobre escrever – se não mais – o fiz naqueles seis meses.

Vejamos o que ele, escritor ganhador de um prêmio Jabuti e autor de livros como Trapo, disse sobre Literatura e Internet no Paiol Literário, evento promovido pelo jornal Rascunho:

Considero um total equívoco dizer que a internet faz com que os jovens escrevam de forma errada. No Brasil, por exemplo, saímos de uma era da televisão, que era totalmente ágrafa (vendo televisão, você não vê uma palavra escrita, só ouve). Nos anos 70 aos 90, a televisão foi o grande agente civilizador do Brasil. E a televisão é a cultura da oralidade. O advento da internet foi uma explosão brutal no sentido contrário – qualquer página que você abre na internet está cheia de coisas escritas. Ou seja, a palavra escrita voltou para o palco. As pessoas estão voltando a escrever – chats, e-mails, blogs, etc. A escrita passou a ser o mediador de toda a comunicação, de todo o processo de informação. A palavra escrita voltou com toda força. É um absurdo encarar a internet como um problema. É como se fôssemos acabar com a internet, proibi-la. Isso não tem sentido. Temos de pensar o que há de positivo em todo este fenômeno. Na minha experiência ao corrigir redações do vestibular da UFPR, em mais de 20 mil textos, não se encontra sequer uma abreviatura utilizada na comunicação na internet. O aluno não é burro. Ele sabe perfeitamente a diferença entre escrever num chat e uma redação para a escola. Ele sabe distinguir os registros. Então, nesse aspecto, eu sou otimista. Acho que a internet está exigindo que as pessoas tenham de escrever cada vez melhor. Elas têm de praticar. A escrita voltou a ser um valor social. E quando isso acontece, todas as forças começam a trabalhar nessa direção. É claro que a internet mudou brutalmente outras relações: a própria circulação do livro, o espaço da literatura. Ainda não temos nem idéia de quais são os efeitos da internet. São muito poderosos. Por exemplo, fui um escritor de cartas a vida inteira, a carta educou muito o meu estilo de escritor; até tenho um romance [Uma noite em Curitiba] que é todo epistolar. Isso acabou. O e-mail é uma coisa meio intermediária: é um telefonema por escrito, meia dúzia de palavras. Uma carta, em certo sentido, é uma peça literária. Não é simplesmente copiar a oralidade direta; você tem de reformatar as informações e produzir um texto escrito, que é uma coisa diferente de oralidade escrita. O e-mail é mais automático, você não tem nenhuma responsabilidade com a permanência.

Talvez seja isso. É natural que uma vez que não estivéssemos mais habituados a ler e a escrever que as coisas, no início, sejam aparentemente ruins mesmo. E com o tempo melhorem. Ou, então, ressurjam de um modo diferente. Afinal, a língua se manifesta de diversas maneiras, nas suas versões orais e escritas. E, por mais que a imagem seja cativante e cada vez mais presente na rede, a palavra sempre será um meio rápido, simples e barato – portanto acessível – de expressão.

Pode parecer otimismo da parte do meu professor, mas adoro quando alguém subverte o senso comum.

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10 Comentários para “A internet empobrece a língua. Será?”

  1. Rosana O. - 16 10 2007 às 8:17

    Alessandro, concordo o professor Cristovão Tezza. Nos desacostumamos de escrever, e ainda mais, durante o período de completo domínio da televisão, fomos completamente passivos. O falar regional, por exemplo, em televisão quase não existe, e quanto transposto, fica caricato. A internet, que não se apresenta com fim de nada, mas com meio, veículo que é e que não temos ideia aonde vai dar, se é que vai dar em algum lugar, permite esse exercício, essa (ou essas) possibilidades de novas linguagens.

  2. Sergio Grigoletto - 16 10 2007 às 10:57

    Eta véin bom sô!

    A subversão dele é tão insubversiva em essência, que até agora fico pasmo por ter ficado alheio a vários dos detalhes que ele exemplificou.
    Na verdade, quando não tomamos algo como pilar, quando fica nas cercanias de nossos afazeres, o senso comum termina por prevalecer como tese.
    Mas eu poderia acrescentar um dado:
    Aquelas definições que o JÔ Soares lê no início de seus programas, como sendo colhidas em provas de vestibular.
    Pois bem: eu não acredito que aquilo seja de onde dizem ser.
    Aquilo me parece peça produzida, tomando como base sensorial o lugar comum que vestibulando chega despreparado para as provas.
    Ou, que existe uma subcultura, assim acintosamente ignorante, graças a péssima qualidade de ensino e boçalidades da internet.
    Enfim, nem tudo está perdido.

  3. Esdras - 16 10 2007 às 15:03

    Texto espetacular, Alessandro.

    As pessoas têm essa tendência pessimista de achar que tudo que é novo é melhor. Na verdade, nem eu tinha opinião muito bem formada até ler esse texto.

  4. Anna - 16 10 2007 às 19:13

    Oi Alessandro:
    Pois é. Eu também adoro qundo alguém subverte
    o senso comum. Parece estar na mesma sintonia que a minha…
    E acho( achismo), hehehe! que todos vamos ter
    de mudar nossa maneira de ver a Internet.

  5. daniel - 17 10 2007 às 2:54

    Concordo com o professor Cristóvão Tezza. A internet veio pra ficar, gostem ou não, e o fato de termos saído de frente da tv e sua caricatura da realidade por si só já é um progresso. E mesmo tendo outras formas de interação, a escrita predomina na rede, pois é uma forma simples, rápida e fácil de se passar alguma mensagem, o que nos leva a praticar mais a escrita e a leitura.
    ah!, eu também adoro quando o senso comum é subvertido ^^”

  6. ana - 17 10 2007 às 9:07

    A internet empobrece a língua ou será que a língua é pobre e dominada por poucos? Eu acho que com a internet estamos todos exercitando e tentando melhorar nossa relação com a escrita, até de um jeito inconsciente. O que me chama atenção no texto é a questão das cartas…talvez seja este o véiculo fadado a extinção, ao contrário de livros e jornais. Mandar um email é muito mais fácil, rápido e pode ser uma coisa elaboradíssima, as vezes o unico jeito de se “falar” com alguém… e assim, permanente e marcante. Um abraço.

  7. _Maga - 18 10 2007 às 18:13

    Adorei, adorei o que ele escreveu. Das considerações sobre a língua, as cartas, a capacidade discriminativa dos alunos quanto ao lugar de cada forma de escrita (que deve ser praticada na escola), quanto a cultura da TV, e quanto a pratica da escrita.

    Enfim: gostei deveras do que ele falou.

    Obrigada mais uma vez por compartilhar conosco de coisas tão interessantes!

    um abraço

  8. Rui de Lucca - 19 10 2007 às 12:02

    Ponto para o Tezzão! (opa, soou mal para vocês?)

  9. Milena - 25 2 2009 às 13:31

    É importante dar espaço a essa discussão, não podemos exigir perfeição mas pedir um pouco de atenção com o uso coloquial, ou não, do português é o mínimo.

  1. [...] Por exemplo eu já havia comentado aqui a observação do professor Cristóvão Tezza que diz que, ao contrário do que se pensa, a internet só veio a melhorar o relacionamento que as pessoas têm com a palavra escrita. [...]

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