A internet empobrece a língua. Será?

O professor Cristóvão Tezza, de longe, foi o melhor que tivemos naquela turma de 1993 na faculdade de Jornalismo, na UFPR. E nos três anos seguintes. Posso dizer que metade do que aprendi sobre escrever – se não mais – o fiz naqueles seis meses.

Vejamos o que ele, escritor ganhador de um prêmio Jabuti e autor de livros como Trapo, disse sobre Literatura e Internet no Paiol Literário, evento promovido pelo jornal Rascunho:

Considero um total equívoco dizer que a internet faz com que os jovens escrevam de forma errada. No Brasil, por exemplo, saímos de uma era da televisão, que era totalmente ágrafa (vendo televisão, você não vê uma palavra escrita, só ouve). Nos anos 70 aos 90, a televisão foi o grande agente civilizador do Brasil. E a televisão é a cultura da oralidade. O advento da internet foi uma explosão brutal no sentido contrário – qualquer página que você abre na internet está cheia de coisas escritas. Ou seja, a palavra escrita voltou para o palco. As pessoas estão voltando a escrever – chats, e-mails, blogs, etc. A escrita passou a ser o mediador de toda a comunicação, de todo o processo de informação. A palavra escrita voltou com toda força. É um absurdo encarar a internet como um problema. É como se fôssemos acabar com a internet, proibi-la. Isso não tem sentido. Temos de pensar o que há de positivo em todo este fenômeno. Na minha experiência ao corrigir redações do vestibular da UFPR, em mais de 20 mil textos, não se encontra sequer uma abreviatura utilizada na comunicação na internet. O aluno não é burro. Ele sabe perfeitamente a diferença entre escrever num chat e uma redação para a escola. Ele sabe distinguir os registros. Então, nesse aspecto, eu sou otimista. Acho que a internet está exigindo que as pessoas tenham de escrever cada vez melhor. Elas têm de praticar. A escrita voltou a ser um valor social. E quando isso acontece, todas as forças começam a trabalhar nessa direção. É claro que a internet mudou brutalmente outras relações: a própria circulação do livro, o espaço da literatura. Ainda não temos nem idéia de quais são os efeitos da internet. São muito poderosos. Por exemplo, fui um escritor de cartas a vida inteira, a carta educou muito o meu estilo de escritor; até tenho um romance [Uma noite em Curitiba] que é todo epistolar. Isso acabou. O e-mail é uma coisa meio intermediária: é um telefonema por escrito, meia dúzia de palavras. Uma carta, em certo sentido, é uma peça literária. Não é simplesmente copiar a oralidade direta; você tem de reformatar as informações e produzir um texto escrito, que é uma coisa diferente de oralidade escrita. O e-mail é mais automático, você não tem nenhuma responsabilidade com a permanência.

Talvez seja isso. É natural que uma vez que não estivéssemos mais habituados a ler e a escrever que as coisas, no início, sejam aparentemente ruins mesmo. E com o tempo melhorem. Ou, então, ressurjam de um modo diferente. Afinal, a língua se manifesta de diversas maneiras, nas suas versões orais e escritas. E, por mais que a imagem seja cativante e cada vez mais presente na rede, a palavra sempre será um meio rápido, simples e barato – portanto acessível – de expressão.

Pode parecer otimismo da parte do meu professor, mas adoro quando alguém subverte o senso comum.

Postado em Escrita.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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