Um recente artigo do Thássius Veloso chama a atenção para a importância dos investimentos feitos em ciência para o desenvolvimento do País. Diversos leitores, no entanto, chamaram a atenção para o fato de que é preciso, antes investir na educação. Talvez nas duas coisas então. Em uma educação para ciência, afinal, não há como desligar uma coisa da outra.
Imediatamente ao ler o artigo e os comentários lembrei de que há dois capítulos do livro O Mundo Assombrado Pelos Demônios, de Carl Sagan, que tratam desses dois temas tão interligados.
No capítulo 19, Não Existem Perguntas Imbecis, ele transcreve um artigo que, resumidamente, publicou na muito lida revista Parade, em meados da década de 90, baseado em uma pesquisa feita com os alunos estadunidenses.
“É oficial”, diz a manchete de um jornal: “Nós somos péssimos em ciência”. Em testes feitos com adolescentes comuns de dezessete anos em muitas regiões do mundo, os Estados Unidos ficaram em último lugar em álgebra. Em testes idênticos, as crianças norte-americanas conseguiram a média de acertos de 43% e seus colegas japoneses a de 78%. Pelo meu sistema de avaliação, 78% é bastante bom – corresponde a um C, ou talvez até a um B; 43% é um F. Num teste de química, apenas os estudantes de duas das treze nações participantes se saíram pior que os norte-americanos. Grâ-Bretanha, Cingapura e Hong Kong tiveram resultados tão bons que ficaram quase fora de escala, e 25% dos canadenses de dezoito anos sabiam tanta química quanto 1% de norte-americanos seletos do último ano secundário.
As estatístiscas desfavoráveis continuam e, pouco depois, Sagan afirma:
Porém, o que me interessa no momento não é produzir uma nova geração de cientistas e matemáticos de primeira classe, mas um público cientificamente alfabetizado.
Dos adultos norte-americanos, 63% não sabem que o último dinossauro morreu antes que o primeiro ser humano aparecesse; 75% não sabem que os antibióticos matam as bactérias, mas não matam os vírus; 57% não sabem que “os elétrons são menores que os átomos”. As pesquisas de opinião mostram que aproximadamente metade dos adultos norte-americanos não sabe que a Terra gira ao redor do Sol e leva um ano para fazer a volta. Nas minhas classes de graduação na Universidade Cornell, sou capaz de encontrar estudantes inteligentes que não sabem que as estrelas se levantam e se põem à noite, nem tampouco que o Sol é uma estrela.
Eu ouvi alguém aí dizer Homer Simpson?
Ele segue o artigo apresentando dados sobre como e por que os estadunidenses médios seriam desestimulados a aprender ciências ou seguir uma carreira a ela ligada.
A maioria das crianças norte-americanas não é estúpida. Parte da razão de não estudarem muito é que recebem poucos benefícios tangíveis quando o fazem. hoje em dia, a competência (isto é, conhecer realmente o assunto) em habilidades verbais, matemática, ciência e história não aumenta o salário dos jovens nos primeiros oito anos depois da escola secundária – e muitos não se empregam na indústria, mas no setor de serviços.
Ele encerra o capítulo explicando por que considera importantes os investimentos continuados em ciência e em uma educação para a ciência. São motivos que vão desde a facilidade para escolher mais acuradamente os candidatos nas próximas eleições a aceitar esta ou aquela solução para salvar o planeta.
A ciência, na minha opinião, é uma ferramenta absolutamente essencial para qualquer sociedade que tenha a esperança de sobreviver bem no próximo século com seu valores fundamentais intactos – não apenas como é praticada pelos seus profissionais, mas a ciência compreendida e adotada por toda a comunidade humana. E se os cientistas não realizarem essa tarefa, quem o fará?
No mínimo, ajudaria às pessoas que geralmente são ouvidas pelos mídias a falarem menos besteira, como demonstra o artigo do Vitor Hugo, evitando-se assim as influências perniciosas e o avanço da ignorância, besta que cavalga a passos mais rápidos que a sabedoria porque pode avançar no escuro.
Principalmente no escuro.
A resposta dos leitores
Meu artigo poderia acabar por aí, mas não consigo evitar brindá-los com uma curiosidade, que pode servir como um incentivo a mais para ler o excelente livro de Sagan.
No capítulo 20, A Casa em Fogo, Sagan mostra as respostas obtidas de alunos de uma escola de Minesota estimulados por seu professor depois de lerem o artigo. Todos estavam terminando o equivalente ao segundo grau.
Ele conservou a ortografia e a sintaxe no original. O tradutor fez o possível. Alguns dos estudantes mostram uma vaga preocupação com o problema, outros nem tanto, mas todas as respostas são interessantes. Separei apenas algumas:
- Nem todos norte-americanos são estúpidos Nós apenas estamos atrasados na escola grande coisa.
- Talvez seja bom não sermos tão inteligentes quanto os outros países. Pois assim podemos importar todos os nossos produtos, e depois não temos de gastar todo o nosso dinheiro comprando as partes para as mercadorias.
- E se os outros países estão se saindo melhor, que importa, pois muito provavelmente eles vão acabar vindo para os Estados Unidos?
- A nossa sociedade está indo muito bem com as descobertas que estamos fazendo. É lento, mas a cura para o câncer está vindo.
- Nem um garoto desta escola gosta de ciência. Eu realmente não compreendi a idéia do artigo. Achei muito xato. Não estou a fim de nada disso.
- Não acho que os garotos norte-americanos sejam estúpidos. Eles só não estudam o bastante, porque a maioria dos garotos trabalha… Muitas pessoas dizem que os povos asiáticos são mais inteligentes que os norte-americanos e que eles são bons em tudo, mas não é verdade. Eles não são bons em esporte. Eles não têm tempo para praticar esportes.
- Eu realmente acho difícil acreditar nesses fatos sobre os Estados Unidos na área da ciência.
Os leitores da revista também escreveram, reagindo ao artigo de Sagan. Eis alguns trechos selecionados:
- Não quero que você melhore a educação. Pois aí não haveria mais ninguém para dirigir os táxis.
- O problema da educação científica é que Deus não é suficientemente glorificado.
- Receio que você não compreenda o país em que vive. As pessoas são inacreditavelmente ignorantes e medrosas. Não toleram ouvir nenhuma idéia nova. Será que você não entende? O sistema apenas sobrevive porque tem uma população ignorante e temente a Deus. Essa é uma das razões por que muitas [pessoas sem formação escolar] estão desempregadas.
- Às vezes sou obrigado a explicar questões tecnológicas a assessores do Congresso. Acredite-me, há um problema na educação científica deste país.
Bem. Até então eu jurava que o ensino e a ciência iam muito bem entre os ianques. O artigo de Sagan é do início da década de 1990.
Estamos no final da primeira década desde novo milênio. Se, naquela época, já houvesse nos Estados Unidos um bom investimento em uma educação para a ciência, o país que é supostamente o mais desenvolvido do mundo, mais que cientistas, tivesse uma população representativa de cidadãos cientificamente alfabetizados.
Isso faria diferença na oportunidade de eleger um presidente mais flexível no que diz respeito às necessidades planetárias. Capaz de ceder a um Protocolo de Kyoto, por exemplo. Isso pode fazer diferença ainda maior daqui a 50 anos quando estivermos completamente a mercê do clima artificialmente alterado da Terra.
Comecei falando da importância para o país dos investimentos em educação e dos investimentos em ciência.
Mas é certo, depois de pensar um pouco mais sobre o assunto e de observar o exemplo estadunidense, que isso tem importância para a toda a Humanidade.
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