Um trecho do livro Arqueologia dos Prazeres, de Fernando Santoro, em que o autor nos explica o entendimento do prazer segundo o filósofo grego Empédocles:

A dinâmica dos sentidos tem a complexidade dos encontros. Porque se tudo sente, isto não significa que todas as coisas são sentidas sempre, nem que as que são sentidas o são do mesmo modo. Os encontros entre corpos se dão de modos diferentes, e com gradações de sutileza. O encontro pode ser grosseiro como entre duas pedras que se chocam, ou extremamente sutil como acontece com a visão. A complexidade maior de um ser vivo advém com sua capacidade de pensamentos e sensações mais sutis. A maior sutileza depende da maior capacidade de diferenciação que os sentidos podem alcançar. O corpo que sente mais diferenças é um corpo descrito fisiologicamente como um corpo poroso. Os poros, as passagens, a permeabilidade de um corpo tornam-no mais receptivo às impressões dos outros corpos em movimento, sobretudo os corpos mais sutis e que também se movem em fluxos ainda mais sutis. Os corpos mais sutis em movimento constituem eflúvios (aporroai) que podem ser percebidos e dar a perceber outros corpos que os movem. Assim, pelos eflúvios suculentos se dá a conhecer o sabor do alimento; pelos eflúvios aéreos, o odor das especiarias; e pelos eflúvios de luz a visão das estrelas. Segundo a interpenetração dos eflúvios pelos poros apropriados, dá-se uma sensação diferenciada.

Os poros tem variadas formas e tamanhos, de modo que um corpo muito sutil não será percebido se o poro for muito maior, mas tampouco haverá percepção se este for muito pequeno e não permitir passagem alguma. A percepção acontece quando há uma certa adequação entre o formato e a dimensão dos poros que semtem com os eflúvios e os corpos sentidos. É o que Teofraso vai chamar de princípio de similitude, na sua esquematização das teorias sobre a percepção. também o prazer e a dor seguirão este princípio de similitude, mas não com relação aos formatos e dimensões, mas no que toca à proporção da mistura que constitui os corpos e cuja harmonia  é a própria vida (psyché). À medida que o corpo toca e é sentido contribui para conservar e manter e fortalecer sua proporção na mistura, gera-se o prazer. Neste caso os corpos são chamados de congêneres (syggenés). Por isso, quando temos sede ou fome e estamos em estado de alguma carência, satisfazer-se e preencher a falta nos proporciona prazer. É que, assim procedendo, restabelecemos a nossa medida, a nossa proporção vital. Mas, se nos excedemos nos objetos de satisfação, claro que perderemos novamente nossa proporção específica e acabaremos por proporcionar mais dor do que prazer. Porque a dor é justamente o que nos afasta de nossa proporção e assim tende a nos desagregar, nos corromper. Temos, segundo a fisiologia geral da natureza dos corpos, uma teoria consequente e coerente para explicar o estado mais saudável e prazeroso como aquele que procura a medida na satisfação dos desejos.

Se entendermos a primeira parte – a que fala dos poros – como uma metáfora e prestarmos a atenção à segunda – a que fala da proporção vital -, perceberemos a importância do autoconhecimento e da sensibilização aos prazeres mais sutis para melhorarmos a nossa qualidade de vida.

 

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!