E então Borges, em uma de suas cinco palestras para a Universidade de Belgrano, me sai com esse autor que mais parece ter saído de uma de suas resenhas imaginadas.
Emanuel Swedenborg existiu de fato, nascido em Estocolmo em 1688, morto em Londres, em 1772.
A propósito disso, Ralph Waldo Emerson disse que nenhum homem levou uma vida mais real do que Swedenborg.
Interessado pela ciência, antecipou e compartilhou diversas observações e criações com outros gênios contemporâneos. Bem como pela política, sendo senador de seu reino. Aos 55 anos já tinha publicado cerca de vinte e cinco volumes sobre mineralogia, anatomia e geometria.
Foi quando teve uma revelação – sobre a qual não entrarei em detalhes – que o fez desenvolver uma doutrina. Nessa doutrina, existem o céu e o inferno. Mas há diferenças.
Um homem morreria e demoraria um certo tempo para perceber seu estado de pós-vida. Continuaria a fazer as coisas que sempre fez, mas as coisas estariam mais vívidas em seu entorno. Nessa nova existência, o céu e o inferno não seriam uma condenação, mas uma escolha. Aqueles que preferissem viver entre os demônios – outros homens – fariam essa escolha, pois não suportariam o paraíso. O mesmo valeria para os anjos: outros homens que assim escolheram viver pois não suportariam o inferno.
Toda a explicação de Borges sobre a doutrina de Swedenborg é interessante e recomendo a leitura no livro Borges Oral, que reúne as cinco palestras do escritor argentino na tal universidade. Mas chama muito a atenção um parágrafo:
Swedenborg narra a história, patética, de um homem que durante a vida se propôs a ganhar o céu, renunciando para o efeito a todos os prazeres dos sentidos. Retirou-se para a solidão, onde se abstraiu de tudo. Rezou, implorou o céu. Ou seja, foi se empobrecendo. E o que aconteceu, quando da sua morte? Quando morreu chegou ao céu, e no céu não sabem o que fazer com ele. Procura seguir as conversas dos anjos mas não as entende. Esforça-se por aprender as artes. Procura tudo ouvir, procura aprender tudo, mas não consegue porque empobreceu. É, simplesmente, um homem justo e mentalmente pobre. Concedem-lhe então o dom de poder projetar uma imagem: o deserto. E nesse deserto rezava como o tinha feito na terra, mas sem se deparar do céu, pois sabe que se tornou indigno do céu pela sua penitência, porque empobreceu a sua vida, porque se negou aos gozos e aos prazeres da vida, o que também é um mal.
A salvação para Swedenborg não é só espiritual, mas sensorial e intelectual. Além disso, a morte não elimina o livre arbítrio. Cada um escolheria o que mais deseja: se você é mais feliz entre os demônios, poderá estar com eles. Se é mais feliz com os anjos, da mesma forma.
William Blake acreditava que a salvação poderia vir por meio da arte e que Cristo seria um artista, um esteta, pois pregava por meio de parábolas, metáforas.
Nesse sentido, a salvação seria alcançada – segundo esses dois – pela inteligência, pela ética e pelo exercício da arte.
Me agradam essas doutrinas uma vez que elas não precisam ser confirmadas após a morte para que produzam uma existência mais do que agradável antes dela.











