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A imortalidade, segundo Borges

3 de março de 2008 | Publicado na Categoria Trechos de livros comentados | 2 Comentários »

Um dos temas abordados pelo escritor argentino Jorge Luis Borges na série de cinco palestras que deu na Universidade de Belgrano, em 1978, foi a imortalidade.

É admirável a forma simples com que ele aborda temas complexos sem, no entanto, torná-los menores ou abrir mão de toda a sua erudição.

Poderíamos então dizer que a imortalidade é necessária. Não a pessoa, mas essa outra imortalidade. Por exemplo, sempre que alguém ama um inimigo aparece a imortalidade de Cristo. Nesse momento, essa pessoa é Cristo. De cada vez que repetimos um verso de Dante ou Shakespeare, somos, de alguma maneira, aquele instante em que Shakespeare ou Dante criaram esse verso. Ao fim e ao cabo, a imortalidade está na memória dos outros e na obra que deixamos.

Então, pensamos, que nesse caso o dom da imortalidade – no raciocínio de Borges – só é dado a alguns bem-aventurados. Mas ele vinha justamente falando de uma imortalidade que não é a pessoal.

Consagrei os último vinte anos à poesia anglo-saxônica, sei de memória muitos poema anglo-saxônicos. A única coisa que não sei é o nome dos poetas. Mas o que é que isso importa? Que importa isso se eu, ao repetir poemas do século IX, estou sentindo algo que alguém sentiu nesse século? Esse alguém vive em mim nesse momento, embora eu não seja esse morto. Cada um de nós é, de algum modo, todos os homens que morreram antes. Não apenas os do nosso sangue.

Mas, para Borges, sequer poeta é preciso ser.

Essa recordação pode ser insignificante. Pode ser uma frase qualquer. Por exemplo: Fulano de Tal, mais vale perdê-lo do que encontrá-lo. Desconheço quem terá cunhado essa frase, mas de cada vez que a repito eu sou esse homem. Que importa que esse modesto compadrito tenha morrido, se vive em mim e em todo aquele que repita essa frase?

Ele não pára. Vai além em seu raciocínio.

A língua é uma criação, acaba por ser uma espécie de imortalidade. Estou utilizando a língua castelhana. Quantos mortos castelhanos estão vivendo em mim? (…) Essa imortalidade não tem que ser pessoal, pode prescindir do acidente de nomes e apelidos, pode prescindir da nossa memória. Para que supor que vamos prosseguir noutra vida com a nossa memória , como se eu continuasse a pensar ao longo de toda a minha vida na minha infância, em Palermo, em Adrogué ou em Montevidéu? (…) posso esquecer tudo isso e continuarei a existir, e tudo isso viverá em mim mesmo que não o nomeie.

E quantas coisas vivem em nós sem que as nomeemos.

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2 Comentários para “A imortalidade, segundo Borges”

  1. Djabal - 3 3 2008 às 8:32

    Essa capacidade de abstração, de raciocínio ou de situar-se num ponto além, alto ou baixo, não sei, mas além, é impressionante.
    Instiga a nossa inteligência naquele pequeno entrecho do salto do peixe de dentro do mar e dura o tempo necessário até que entre de novamente.

  2. Anny - 4 3 2008 às 10:22

    O bom da abstração é isto. Ir além do imaginado por alguém ou por nós mesmos…

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