Notável que eu tenha demorado tanto para ler A História Sem Fim, de Michael Ende. Notável também que se fale tão pouco dele e de seu livro. Quase todo mundo viu a versão para cinema, de 1984, de Wolfgang Petersen, que é um filme certamente encantador.

Facilmente, dando uma busca na internet, encontra-se o termo “A História Sem Fim” a associado a outros tais como “marcou minha infância”, referindo-se ora ao filme ora ao livro. É a história do menino Bastian Baltasar Bux que lê um misterioso livro que roubou de uma ainda mais misteriosa livraria. Ele – vivido por Barret Oliver, na época um jovem ator e hoje fotojornalista (fonte) – se vê tomar parte da história que lhe é narrada, salvando um mundo chamado Fantasia que, então, corre o risco de ser destruído por uma entidade chamada O Nada.

O filme

Mas garanto: o filme, embora seja excelente e me trazer boas lembranças, está muito abaixo do proposto por Ende. Tanto que, se o artigo da Wikipedia não estiver errado, ele processou a produção e, embora tenha perdido, conseguiu que tirassem seu nome dos créditos.

Apesar disso, repito, o filme é encantador – se quiser matar a saudade ou tiver curiosidade, há sites com cenas, fotografias e outros materiais.

Não são os efeitos visuais limitados da época que o colocam abaixo do esperado. Não é esse o motivo. Acontece que o roteiro tinha uma terrível tarefa e não conseguiu transmitir toda a força da mitologia criada por Ende. E eu, que costumo relevar quando a tela deixa de seguir a risca o que está na página, preciso admitir. Nesse caso fez diferença.

Ainda que, como os fãs de Ende querem, A História Sem Fim tenha direito a uma produção à altura de sua magnitude – a exemplo do que aconteceu com O Senhor dos Anéis, de Tolkien – é exigir demais de qualquer diretor a reprodução do poder que mora nas páginas desse livro.

Na verdade, isso vale para qualquer livro. Mas nesse caso, façamos um trato e elevemos esse teorema de impossibilidade à terceira ou à quarta potência.

Atreiú e Gmork na cidade abandonada

Como traduzir para os fotogramas o momento quando Atreiú – herói da história que Bastian lê – encontra Gmork, personificação do Nada, disposto a matá-lo, em uma cidade em ruínas?

Não há como reproduzir o diálogo a um só tempo filosófico, claro e simples – lembre que trata-se de um livro para “crianças” – sem se tornar enfadonho no cinema.

Os dois debatem, nessa hora, num diálogo em que rondam a morte e a desintegração – tal como quando Hamlet encontra a caveira de Yorick – sobre o que seria o Nada e como os seres de Fantasia ao serem consumidos por ele, indo ao mundo dos homens, se transformam em mentiras. Diz Gmork:

– Calma, pequeno louco, rosnou o lobisomem. Quando chegar a sua vez de saltar para o Nada, você se transformará também num servidor do poder, desfigurado e sem vontade própria. Quem sabe para o que vai servir. É possível que, com sua ajuda, se possam convencer os homens a comprar o que não necessitam, a odiar o que não conhecem, a acreditar no que os domina ou a duvidar do que os podia salvar. Por seu intermédio, pequenos seres de fantasia, fazem-se grandes negócios no mundo dos homens, desencadeiam-se guerras, fundam-se impérios…

Como é o caso do amor à terra natal, quando pervertido pelas tendências nacionalistas. Note que Ende é um dos autores de maior sucesso do pós-guerra na Alemanha.

Esse capítulo em especial é uma espécie de síntese do livro que, além de divertir, é claro, mostra como facilmente deixa-se de acreditar nas fantasias e passa-se a acreditar com ainda maior facilidade em mentiras.

A história de Ende demonstra assim como esses dois processos estão ligados.
Para voltar a esse tema, mas com uma outra abordagem, uma boa pedida é o livro de Salman Rushdie, Haroun e o Mar de Histórias, que foi uma forma de o escritor indiano explicar ao filho por que perdeu a liberdade de expressão.

A música tema

A música tema é inesquecível, apesar do teclado e dos arranjos característicos daquela época. Tenha um pouco de paciência com a bateria de karaokê porque a letra e a melodia demoram para começar. Muitos, como eu, sonharam voar sobre as nuvens, e sob essa melodia, nas costas do dragão da sorte Fuchur (no filme, chamado de Falkor).

A força das imagens

As imagens de Michael Ende são fortes. Elas se concretizam por assim dizer. O infinito e o eterno têm representações marcantes, dignas de um registro de Borges, escritor obcecado por esses temas.

Veja por exemplo a descrição das Montanhas do Destino:

Nesta região não se aventuravam nem os mais ousados alpinistas. Ou melhor: já fazia tanto tempo que ninguém as conseguia escalar, que ninguém se lembrava mais de quando isto acontecera pela última vez. Pois essa era uma das muitas leis imcompreensíveis de Fantasia: as Montanhas do Destino só podiam ser conquistadas por um alpinista quando aquele que o fizera pela última vez tivesse sido completamente esquecido e quando já não existisse nenhuma inscrição em pedra ou metal que desse testemunho do seu feito. Por isso, quem conseguisse levar a cabo tal proeza seria sempre o primeiro.

Uma idéia simultaneamente bela e angustiante. Aniquila qualquer desejo ou possibilidade de posteridade sem, no entanto, ser niilista. A história é cheia de coisas desse gênero.

Ação e descrição

Quando Ende descreve, você vê, você enxerga, e tais descrições, dinâmicas, se materializam nos olhos do leitor. Por outro lado, as passagens com mais ação não ficam borradas ou por demais estáticas. As letras têm movimento. E há muita ação.

Todo leitor, como se sabe, é uma espécie de cego e depende do bom trabalho do escritor, que serve de guia, assim como Virgìlio o foi para Dante na Divina Comédia. O escritor não deve deixar seu leitor perdido ou desorientado. Isso é o mínimo. Mas quando o passeio se torna divertido, saímos do terreno dos guias turísticos e entramos no território da Literatura com L maiúsculo, volutas e detalhes em dourado.

Uma curiosidade

Uma curiosidade, para quem ainda não leu o livro, é que os momentos em que as coisas ocorrem no mundo de Fantasia – isto é, quando lemos o que Bastian lê – as letras têm uma cor. Quando ocorrem no mundo de Bastian – e lemos o que ele não lê -, têm outra.

É mais ou menos o que acontece quando encontramos esse livro. Antes, o mundo tem uma cor. Depois, outra. Esse é o poder dos grandes livros. Transformar o mundo.

Não o mundo todo, mas o que está a nossa volta.

A não ser que o Nada já tenha nos tocado.

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!