“Sua condição de desconhecido elevava-o acima dos demais.

E ainda uma coisa: havia um livro aberto sobre a mesa. Nesse café ninguém jamais abrira um livro sobre a mesa. Para Tereza, o livro era o sinal de reconhecimento de uma fraternidade secreta.” Milan Kundera

E assim se da o encontro do casal que inicia a trama do comentado livro A Insustentável Leveza do Ser do escritor tcheco Milan Kundera. É por conta de Tomas ter um livro aberto sobre a sua mesa em um bar que Tereza o olhará em meio a tantos outros.

Na continuidade dos seu relato o autor nos contas por que isso acontece:

“Contra o mundo de grosseria que a cercava, não tinha efetivamente senão uma arma: os livros que pedia emprestados na biblioteca municipal; sobre tudo os romances: lia-os em quantidade, de Fielding a Thomas Mann. Eles não só lhe ofereciam a possibilidade de uma evasão imaginária, arrancando-a de uma vida que não lhe trazia nenhuma satisfação, mas tinham também para ela um significado como objetos: gostava de passear na rua com um livro debaixo do braço. Eram para ela aquilo que uma elegante bengala era para um dândi do século passado. Eles a distinguiam dos outros.(…)

Portanto, o homem que acabava de chamá-la era ao mesmo tempo desconhecido e membro de uma fraternidade secreta.” Milan Kundera

E toda a história do livro começa por um livro deixado sobre a mesa.

Encontrar com alguém carregando um livro pelas ruas e se identificar com esta pessoa deve ser mais comum do que se pensa. Normalmente temos interesse em saber sobre o livro que está lendo: se é bom, se esta gostando, se já leu outro daquele autor… e já queremos indicar o de nossa preferência naquela área, expressar a nossa opinião sobre o livro, etc. E dos lugares mais improváveis inicia-se uma conversa.

Já vi alguns estudiosos da literatura chamarem de não-lugares da leitura os ônibus, aeroportos, filas de banco, etc. Pois para mim esses são ótimos lugares de leitura, além de serem lugares onde se é capaz de fazer amizades improváveis em torno da leitura. Já tive a oportunidade de desenvolver conversas maravilhosas neste lugares por conta dos livros.

Assim como em diversas sociedades onde os membros se identificam por símbolos, os leitores o fazem pelos livros que carregam em baixo do braço, não com orgulho, não como um adorno, mas como uma companhia que nos dá alegria, prazer  e, por vezes, um tanto de liberdade.

Carregamos também como um objeto identificador da sociedade secreta dos leitores.

Sobre o autor: Marcela Ortolan

Andarilha convicta, leitora apaixonada, behaviorista radical. Acredita que o mundo é grande demais para que apenas uma arte tenha o seu monopólio.