Eu era leitor de quadrinhos. Olhando pra trás, até tenho a sensação de que os lia, exclusivamente, eles e somente eles. Diria que cresci pouco depois, mas mentiria: não foi o que aconteceu; fosse verdade, não teria deixado os quadrinhos de lado por livros de bolso importados. Daí a me descobrir leitor inveterado, sem limites de mídia, foi um salto.

Trocando mídias

Os amantes de livros concordarão que um dos grandes prazeres de se ter um livro novo em mãos é o cheiro das folhas (teve até pesquisa). Ainda tenho este hábito: passadas algumas horas da compra, quando parece que ninguém está a olhar, abro o livro com vontade e dou uma bela cafungada, com meio rosto perdido no tomo e os olhos fechados – porque, claro, não dá pra esperar ter absolutamente ninguém ao redor.

Fato é que pra se ler nas novas plataformas de leitura eletrônica (costumam chamar de e-book reader ou e-reader por aí) é adaptar-se a uma nova tecnologia – é isso mesmo, o papel encadernado com letras e imagens impressas é um tipo de tecnologia – e isso implica em mudanças de comportamento:

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  1. perde-se o prazer de cheirar um novo livro;
  2. nos e-book readers não temos a mesma possibilidade de lembrar onde está um trecho do livro só registrando mental e intuitivamente “página esquerda, topo”, “página direita, meio” ou qualquer combinação do gênero;
  3. e também não dá pra colocar marcações nos cantos das páginas (apesar de ser possível fazer anotações digitais);
  4. a forma de consultar as anotações muda de plataforma para plataforma e ainda não agrada (pelo menos no Nook Simple Touch);
  5. as maneiras de organizar a biblioteca também dependem da plataforma escolhida;
  6. existe uma briga de padrões e experiências apresentadas pelas diferentes plataformas, coisa que no mercado de impressos nunca aconteceu de forma acirrada (pelo menos no Brasil, considerando disputa entre duas editoras publicando um mesmo título). Em outras palavras, o que será oferecido ainda não está bem definido;
  7. folhear, nos e-book readers, apenas eletronicamente. Até aí tudo bem, mas a experiência de correr as páginas tem tonalidades outras;
  8. os e-book readers são melhores pra ler no transporte público, porque dá pra segurar e mudar as páginas com a mesma mão (ou seja, você pode ler mesmo em pé no ônibus);
  9. nesses aparelhos, é possível carregar vários textos sem acréscimo algum ao peso (ou seja, carregar aquele tomo de 400 páginas requer o mesmo esforço que um de 20 páginas, porque a plataforma é sempre a mesma);
  10. mais importante: o conceito de livro muda. O livro, que até então era conteúdo e plataforma, passa a ser apenas texto

E justamente por causa deste décimo ponto que prefiro chamar o Nook que ganhei de aniversário de plataforma de leitura eletrônica: ele serve como suporte para o conteúdo, independente de qual seja o texto. Poderia chamar simplesmente livro, mas muita gente vai continuar dizendo por aí “ah, mas ler no livro é muito mais legal.”

São experiências diferentes, comparar não é justo. Mas, como não escaparemos disso: como você acha que é essa nova vivência?

Sobre o autor: Otávio Dias

Velho, implicante, desvairado: concordância nominal não é prioridade de minha pessoa. Tampouco o é sacar meandros da língua; desvendar