Os corredores daquele colégio sempre me assustaram, desde a primeira vez que coloquei meus pés ali, meu coração batia acelerado, meus olhos começaram a disparar lágrimas incessantemente. Mas era proibido chorar, pois homem não chora.

As humilhações por ser calouro, novato, ou simplesmente “cachorro” como passei a ser chamado, não me intimidaram, mas alimentaram cada vez mais minha infinita vontade de fugir dali. E as fugas eram constantes, sejam reais ou imaginárias.

Depois veio a separação por grupos, as amizades, e a rotina de um colégio militar: acordar cedo, correr, estudar, vigiar, ser vigiado, punir, ser punido. Meus dias se transformaram num inferno, e as detenções nos finais de semana eram um tormento. Ficar sábados e domingos preso naquele lugar me deixava louco.

A paixão por Teresa me arrebatou fulminantemente. Fui carregado pelos olhos compassivos e a simplicidade daquela garota. Logo ela, a paixão não correspondida de meu melhor companheiro naquele lugar. Mas o coração não escolhe destino, simplesmente ela apareceu diante de mim e fui abalado pelo amor daqueles lindos olhos.

Paixões platônicas sempre foram meu fraco, a cada dia sempre surge um novo amor, uma nova estória com enredos avassaladores, para logo depois serem destruídos por uma realidade cruel da vida de um garoto de dezessete anos, filho de pais separados. Mas isso não vem ao caso agora, vamos ao que realmente interessa: minha paixão por Teresa.

Foram dias intensos, marcados por mudanças tão díspares quanto minha capacidade adolescente de assimilá-las. Mas os caminhos a serem trilhados são, também,muitas vezes, traiçoeiros.

Continuei amando, mantive-me preso às regras e imposições dos militares superiores, e de certa forma, manipulado pelo círculo de alunos mais velhos e mais poderosos que nos humilhavam a cada dia, a cada hora, a cada amanhecer. Há certas pessoas que nascem mesmo para serem mandadas, submissas. Será que sou uma delas? E meu futuro, será diferente deste presente imposto?

Não sei as respostas, apenas vivo o agora, sigo as regras, cruzo horizontes…

Crônica inspirada na leitura do livro A CIDADE E OS CACHORROS, de Mario Vargas Llosa.

Sobre o autor: Amilton Costa

Amilton Costa é Dentista, Mestre em Saúde da Família , autor dos livros De Boca Aberta: crônicas de vidas na cadeira odontológica, e 20 Dias.