diogo-nogueira-4_0x535

Difícil encontrar alguém que negue o fato de Diogo Nogueira ter um belo timbre, além de saber colocar muito bem sua voz e conseguir sustentar-se sempre afinado, das notas mais graves até as mais agudas de sua extensão. Para que essas qualidades técnicas forjem um bom cantor, no entanto, é preciso que se somem às virtudes esperadas de um intérprete: planejamento de repertório, trabalho conjunto com arranjadores para determinar uma intenção artística, sensibilidade para entender uma melodia letrada e atacar cada nota com nuances que valorizem a mensagem da canção – e aqui ainda poderíamos citar muitos aspectos ligados à divisão melódica, à respiração etc.

Até agora, em seu currículo artístico, Diogo Nogueira vinha se comportando como um piano afinado: um instrumento valiosíssimo, de muito potencial, mas que precisa de mediação humana para gerar boa música. Seria maldoso defender que a carreira de Nogueira vinha sendo conduzida de maneira robótica, não é isso, mas parece justo apontar que os esforços mais humanos de seu trabalho – em oposição à qualidade técnica que sempre esteve lá – vinham sendo dirigidos para a construção de uma imagem de galã novelesco, gatão das gatinhas, e não para a consolidação de um intérprete valoroso do cancioneiro popular.

Toda essa introdução para passar o seguinte conselho: se você tem reservas ao nome de Diogo Nogueira por razões parecidas com as que listei acima, dê uma chance para o cara e veja/ouça seu “Bossa Negra”, turnê nacional com o bandolinista Hamilton de Holanda que estreou nesta semana em São Paulo, ancorada no álbum recém-lançado de mesmo nome.

Dispensemos o blá-blá-blá conceitual elaborado para vender o trabalho: basta saber que o repertório junta clássicos da canção nacional a temas novos, compostos pelos dois protagonistas do projeto com o auxílio de alguns parceiros. A mistura se integra muito bem em arranjos que mantêm a mesma formação inusitada em todos os números: apenas voz, bandolim, contrabaixo e percussão (recuso-me a corroborar o neologismo “percuteria” apresentado no projeto). Ouve-se uma união coesa de elementos, uma sobreposição que não soa como “salada” (o que é uma conquista rara e, por isso, merecedora de valorização). Podem-se perceber caminhando juntos samba, jazz, bossa nova, choro, contrapontos eruditos e até pagode – curiosamente, a lembrança dos afrossambas de Baden e Vinicius, declaradamente a maior influência para a realização do trabalho, não vem à mente de maneira tão óbvia quando se ouvem as canções de “Bossa Negra”.

Diogo Nogueira está ótimo. Se qualidade vocal o rapaz já tinha, e lhe faltava um pouco de esforço para tentar maiores pretensões artísticas, em “Bossa Negra” há um bom argumento a seu favor. Não sei se sua motivação para o projeto foi algo do tipo provar que não é “apenas um rostinho bonito”, mas se houve algo nesse sentido, a prova apresentada é contundente. Há forte campanha para minorar a valorização das aparências em nossas vidas, de resto uma luta justa, mas não há como resistir à tentação de comparar as (breguíssimas) capas dos álbuns anteriores de Diogo Nogueira com a capa de “Bossa Negra”: a impressão imediata é a de que deve vir algo mais sério dali, e o conteúdo musical do álbum cumpre a promessa da embalagem.

Quanto a Hamilton de Holanda, destacar suas qualidades como instrumentista pode parecer de uma obviedade ofensiva para qualquer um familiarizado com seu trabalho, mas há de se destacar que esse é seu primeiro trabalho de relevo ligado à canção, em vez de ligado à música instrumental. Há riscos grandes para o músico nessa mudança de área, aos quais já sucumbiram muitos instrumentistas virtuosos: pode-se atravessar o cantor, atrapalhando a apreensão da melodia vocal com excesso de notas, ou, pelo contrário, pode-se subutilizar seu próprio potencial de instrumentista, acompanhando o cantor com burocráticos blocos de acordes. Basta dizer que Holanda foge das duas armadilhas, preservando suas qualidades notórias de bandolinista também na execução de canções e encontrando o tempo certo para chamar a atenção.

Juntos, Holanda e Nogueira construíram um conjunto de canções que cria imediata necessidade de audição para todos os que se importam com essa forma de arte no país – especialmente para os que se importam com a canção brasileira e dizem que não se faz nada que preste há mais de 30 anos, antigamente é que era bom etc. Com esses temas novos integrados a releituras originais de clássicos tão díspares quanto “Desde que o Samba é Samba”, “Risque” e “Mundo Melhor”, temos em “Bossa Negra”, o álbum e o concerto, o evento mais relevante do ano na área de canção nacional. A se ver, a se ouvir.

Sobre o autor: André Simões

André Simões, 29, jornalista, cronista, mestre em Estudos Literários pela UEL e "cliente VIP número 1 do Santoíche", conforme atestado em condecoração solene promovida pelo proprietário da lanchonete. Em 2010, publiquei meu primeiro livro de crônicas, "A Arte de Tomar um Café" (AtritoArt Editorial/Promic). Interessados em adquirir esta pérola da literatura brasileira podem entrar em contato pelo e-mail adfsimoes@gmail.com. Esquema Radiohead de transação comercial: pague o quanto quiser mais as despesas de postagem.