A arte serve para quê?

A arte, em um primeiro momento, serve para nada.

No sentido de utilidade primária, ela não tem nenhuma.

Você não vai conseguir abrir uma garrafa de cerveja com um quadro de Chagall, por exemplo. Ou domesticar um cachorro com A Noite Transfigurada, de Schönberg. Ou construir uma ponte com A Ilíada, de Homero.

Se somos imediatistas, a arte é inútil. De certa maneira, é bom que seja assim. Todas as vezes em que a arte tende a um sentido mais utilitarista ela se empobrece.

Ao contrário, quando as utilidades tendem à arte, elas se enriquecem. É o caso do design.

Mas para compreender e explicar a você a função da arte, tomo emprestadas as palavras de um de meus livros preferidos, Desvendando os Quadrinhos, de Scott McCloud.

Como o livro é em quadrinhos, colocarei entre colchetes [ ] as partes que precisarei descrever:

Eu vejo a arte como qualquer atividade humana que não se desenvolve a partir dos dois instintos básicos de nossa espécie: sobrevivência e reprodução. [No quadro, um homem das cavernas corre atrás de uma mulher das cavernas que, assustada, foge]

Exemplo: este é um homem pré-histórico caçando uma mulher pré-histórica com uma única coisa em mente: reprodução.

Esse instinto é tão forte que governa todos os seus movimentos. Nenhum passo é desperdiçado na busca de sua meta.

A mulher – temendo por sua sobrevivência – consegue se esconder. Privado de sua meta, o homem pára, indeciso.

De repente…! [aqui um tigre de dentes-de-sabre salta da floresta e assusta o homem]

Agora, todos os seus pensamentos e ações se concentram no outro instinto humano vital: sobrevivência.

Preso à beira de um penhasco, sua mente só pode conceber um caminho para a sobrevivência [o homem está encurralado entre o tigre e um despenhadeiro].

Ele o pega [no último segundo o homem se agarra a um galho que está sob sua cabeça. O tigre pula, mas acaba caindo no penhasco].

E sobrevive [o homem escapa e o tigre cai].

Seu próximo passo deve ser procurar comida (sobrevivência) ou talvez outra mulher (reprodução).

Contudo, em vez disso… [o homem olha para baixo onde deve estar o tigre morto ou ferido e faz uma careta]

… arte.

É um fato feliz da existência humana que nós simplesmente não podemos passar todas as horas em que estamos acordados comendo e fazendo sexo! Não importa com que ímpeto busquemos nossas metas, vão surgir ocasiões em que simplesmente não vamos ter nada pra fazer!

O que pode parecer uma tribo de selvagens entediados ali embaixo, na verdade, é uma colônia artística em potencial [o autor observa um bando de homems e mulheres das cavernas].

Vê essa velha com a vareta? Olhe as linhas que ela desenha na terra. Hoje está como dor de estômago. Seus riscos são apertados e angulares. Ontem ela se sentia melhor. Os traços eram abertos e curvos.

Aquele homem cria um ritmo simples com duas pedras. Ele não sabe por quê, mas o som o agrada.

Perto dali, um garoto chuta cascalhos, esmurrando o ar com o punho. Hoje ele perdeu uma briga e tenta afastar sua frustração…

… enquanto, aqui, uma garotinha canta uma canção infantil.

Por ser independente de nossos instintos evolutivos, a arte é a nossa maneira de afirmarmos nossa identidade como indivíduos e sair dos papéis pequenos que a natureza nos atribui.

Claro que a “mãe natureza” é tão brilhante que até essas coisas têm utilidade do ponto de vista evolucionário.

Três na verdade.

  • Primeiro, exercitam as mentes e corpos que não estão recebendo estímulos externos. Esta função seria desempenhada em séculos posteriores por esportes e jogos.
  • Segundo, extravasam desequilíbrios emocionais ajudando na sobrevivência mental das raças. A arte, como auto-expressão; o artista como herói, pra muitos, o maior objetivo.
  • Terceiro, e talvez mais importante pra nossa sobrevivência como espécie, essas atividades casuais conduzem… a grandes descobertas! [aqui um homem das cavernas, que casualmente esfregava dois gravetos, cria fogo]. A arte como descoberta, como a busca da verdade, como exploração, a alma de grande parte da arte moderna e a base da linguagem, ciência e filosofia.

A arte – e, nela, incluída a literatura – está entre nós para dizer aquilo de que precisamos e não temos, aquilo que no momento seria totalmente útil mas que ainda não conhecemos – pode ser um sentimento ou uma máquina ou as duas coisas ao mesmo tempo -, aquilo que serve para tudo mas de que, agora, podemos e precisamos prescindir. Algo de que necessitaríamos neste instante mas que está além de nosso alcance.

Arte serve para nada agora, mas fala sobre algo que serviria para tudo amanhã. Expressa uma ânsia de algo que nem sabemos ainda o que é. Uma ânsia que só é sentida, neste planeta, por aqueles que se dizem e se assumem como humanos. Qualquer um que assuma profundamente – e com todas as consequências que isso traz – como humano e, fruto disso, tome para si o compromisso de ao menos tentar ultrapassar essa condição pode ser considerado um artista, independentemente da sua área de atuação.

A arte, portanto, sob esse ponto de vista é um instrumento de transgressão e superação. Algo para nos levar além.




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