Condenado a 95 anos de prisão escreve à Biblioteca Pote de Mel
12 de novembro de 2008 | Publicado na Categoria Bibliotecas | 6 Comentários »Ao chegar à Panificadora Pote de Mel para tomar meu café da manhã, Carlos me entrega uma carta. Imediatamente, pede-me que veja de onde veio. Assina Francisco Djalma Moreno Francioni, da Penitenciária Central do Estado do Paraná, em Piraquara.
Senhores,
Proprietário da Pote de Mel, Carlos Lazzares, e blogueiro Alessandro Martins.
Bom dia e ótima semana de trabalho. Soube dos senhores, atividade e endereço, lendo uma reportagem no jornal Gazeta do Povo, que muito me chamou atenção pela criatividade do estabelecimento comercial, pães e leitura.
Sei que tomarão com surpresa esta cartinha e o motivo de tê-la escrito. Já explico!
Procuro amigos, então peço, se possível, deixar à vista na prateleira dos livros esta cartinha, a quem interessar escrever. Procuro amigos, qualquer idade, cor, sexo ou religião para conversarmos por carta.
Eu sou de outro estado, vim de transferência de Ilha Grande, Rio de Janeiro, hoje extinta. Já fui portador da maior sentença do Paraná, de vários séculos, que diminuiu com recursos jurídicos processuais e hoje estou com 95 anos de prisão e 56 de idade. Cometi mil coisas erradas, não sou inocente e pago o preço justo dos meus erros.
Procuro amigos. Podem escrever e fazer perguntas, sem problemas.
Meu endereço:
Francisco Djalma Moreno Francioni
PCE – Penitenciária Central do Estado
Piraquara – CEP 83301-970
Espero sinceramente que alguém escreva ao Francisco.
De fato, às vezes, tudo de que um homem precisa precisa é um amigo.

Sensacional e comovente! Vou escrever para ele.
Na década de 70 meu pai morou na Alemanha. Um dia, andando pela rua viu uma caixa de correio com o sobrenome “Jock”. Tomou coragem, bateu e foi recebido por um casal de velhinhos. Entraram, tomaram café, trocaram fotografias e descobriram que eram parentes diretos.
Quando ele tava saindo, a Frau lhe deu um diário, escrito a mão, por um alemão que foi prisioneiro na 2a guerra mundial. Dia a dia ele escrevia seu diário na prisão.
Hoje isso está comigo, e não sei do que se trata. Mas está guardado. Já tentei mostrar para alguns amigos que falam alemão, mas parece que foi escrito antes da grande reforma ortográfica, então a dificuldade é grande.
Parabéns pelo excelente trabalho na Pote de mel, meu caro!
grande abraço
Comovente mesmo. Quando eu era adolescente me correspondia com muita gente e cheguei a receber cartas de presidiários, porque meu endereço certa vez saiu numa revista. Confesso que fiquei com um pouco de medo de criar algum tipo de vínculo (medo infundado, já que qualquer outra pessoa que me escrevia podia ter más intenções). Mas tenho curiosidade. Principalmente quando vejo que apesar de infrator, há humanidade, como nessa carta.
Posso imaginar a sua surpresa ao ler a carta, Alessandro. Também cheguei a me corresponder com uma detenta de Tatuapé anos atrás, isso deve ser muito importante pra quem está do lado de dentro. Vou escrever pro Francisco, sim. E não é que ele se expressa muito bem? Abraços!
Mariana,
acho que ele vai ficar bem feliz com a chegada de sua carta…
Beijos do Ale.
Renata,
acho louvável acreditar antes na humanidade de quem quer que seja. É para poucos.
Beijos do Ale.
Jock,
esse diário é uma preciosidade. Quando for para a Alemanha, não deixe de levá-lo. Certamente encontrará alguém que posso vertê-lo para uma escrita mais corrente.
Abraços!