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Viagens de Gulliver: vendo as coisas sob uma outra perspectiva

5 de dezembro de 2007 | Publicado na Categoria Livros e afins | 4 Comentários »

Quando o Paulo esteve em Curitiba pudemos conversar durante algumas horas na Pote de Mel. Um dos assuntos foi, entre muitas outras coisas bem mais divertidas que isso, qual seria afinal a importância da literatura, sobretudo da ficção.

Engraçado isso de desde sempre convivermos com livros e um tema como esse ainda assim vir à baila. De fato, certos temas são inesgotáveis.

Ele contou-me que, na formatura do mestrado da Paula, um dos professores fez um discurso inspirador sobre literatura, concluindo que a ficção serve para nos dar a visão que o outro tem do mundo. Para nos colocar, de certo modo, nas sandálias que pertencem a pés que não os nossos.

Não a visão certa, não a visão errada. Não uma verdade. Apenas isso: a experiência do outro.

É algo modesto e ambicioso a um só tempo.

Modesto porque não se propõe a solucionar o Universo e dar sentido à vida.

E ambicioso porque relatar a experiência alheia exige uma compreensão do alheio. Algo quase sobre-humano a que o escritor se propõe.

Quanto menos de si e mais dos seus semelhantes ele coloca em sua obra, mais se arrisca, mais aposta e mais podemos ganhar caso seja bem-sucedido.

O engraçado é que mesmo a aplicação literal dessa idéia, a de ver as coisas sob outro ângulo – digo, geometricamente – pode dar resultado. E o livro Viagens de Gulliver, de Swift, é uma prova disso. Bastou reduzir o tamanho físico dos personagens em relação ao protagonista para que autor apresentasse coisas tão cotidianas de uma forma que somos incapazes de perceber.

Por exemplo, como os dois liliputeanos interpretaram o relógio do invasor de sua terra ao revistá-lo:

Do bolso direito do cinto pendia grande corrente de prata, com uma espécie maravilhosa de engenho na ponta. Ordenamos-lhe que tirasse para fora o que quer que houvesse na extremidade da corente; parecia ser um globo, metade feito de prata  metade de algum metal transparente; pois do lado transparente vimos caracteres estranhos traçados circularmente, e julgamos poder tocá-los até verificarmos que os nossos dedos eram detidos pela substância lúcida. Ele aproximou dos nossos ouvidos o engenho, que fazia um ruído incessante, como o de uma azenha; e supomos que seja algum animal desconhecido, ou o deus que ele adora: propendemos mais, todavia, para a última opinião, porque nos assegurou que raro fazia alguma coisa sem o consultar.

O tema de mudança de tamanho ou da diferença de tamanho é recorrente na literatura. Posso lembrar agora de Alice no País das Maravilhas – em que a personagem quase se afoga nas próprias lágrimas – ou ainda das lendas do Rei Arthur, que se vê transformado por Merlin em seres de diversas magnitudes e naturezas para melhor compreender o reino que governará. Mas certamente há muitos outros exemplos.

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Tags:ficção, gulliver, literatura, livro, swift

4 Comentários para “Viagens de Gulliver: vendo as coisas sob uma outra perspectiva”

  1. Anny - 5 12 2007 às 17:50

    Quando você estuda desenho, e compreende o que é perspectiva, não compreende porque algumas pessoas não conseguem , vamos dizer, ver isto que está tão claro pra você. Só pude compreender isto qundo dei aula de desenho. Alguns alunos não compreendiam o que eu estava explicando. Pensei estar complicando demais. Até que resolvi perguntar pra eles se ouviam historinhas ou a mãe lia historinhas pra eles, quando eram pequenos. Responderam que não. Então, perguntei a meus filhos se compreendiam o que estavam vendo. Esplicaram direitinho. Eu lia histórias pra eles todos os dias antes de dormirem…

  2. Flávia - 5 12 2007 às 17:58

    Não sei o que é mais encantador, a história do relógio ou o comentário da Anny aqui em cima.

    A literatura realmente nos faz ver algo sob outra perspectiva mas este blog não deixa nada a desejar.

    ;)

  3. daniel - 6 12 2007 às 1:02

    Nossa, foi a melhor definição de literatura que eu vi. Ela é realmente simples, mas muito boa. Ter um pouco da visão de outra pessoa sobre algum ponto é sempre interessante, seja através de livros, desenhos, músicas, conversas…

  4. _Maga - 7 12 2007 às 23:19

    “Uma obra de arte deve levar um homem a reagir, sentir sua força, começar a criar também, mesmo que só na imaginação. Ele tem de ser agarrado pelo pescoço e sacudido; é preciso torná-lo consciente do mundo em que vive, e, para isso, primeiro ele precisa ser arrancado deste mundo.” Pablo Picasso

    Que post delicioso, Alessandro.

    Andei me dedicando a escrever um texto elencando alguns motivos pelo qual a literatura seria importante e dando um embasamento psicológico ao assunto. Pelo tempo falei de três pontos que achei interessante: a palavra como promotora de conhecimento e auto-conhecimento e como criadora da consciência. Coloquei apenas destes três por falta de tempo mesmo, o meu interesse era falar um pouco sobre a suspensão da punição… contudo esse assunto exige bem mais tempo do que dispunha.

    Hoje ainda, enquanto lavava a louça, conversava com minha irmã e falávamos sobre pessoas que acabam se “embananando” com coisas simples, e fomos percebendo que em comum eram pessoas que não liam muito e, mais que isso, não se interessavam muito pela cultura em geral. Não se preocupam em ir atrás de noticias novas, de conhecer pessoas diferentes do seu mundo… É interessante porque essas pessoas – universitários, pessoas inteligentes e sem problemas financeiros – acabam se prejudicando na sua carreira, tendo dificuldades em vários sentidos, coisas que poderiam ser mudadas com um pouco mais de contato com a cultura não tão de massa, digamos assim.

    E agora você ainda lembra de mais uma coisa interessante! Não havia nem sonhado em falar da empatia!!!! A literatura como promotora de empatia – e, desta forma, desconstrutora de preconceitos e mal-entendidos.

    Muito bom! Adorei o post, Alessandro!!!

    beijos

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