Este poema não é de Carlos Drummond de Andrade
15 de novembro de 2007 | Publicado na Categoria Dicas de sites sobre livros e outras coisas, Livros e afins | 13 Comentários »Uma das piores pragas trazidas pela internet – entre as muitas coisas boas que trouxe, admitamos – foi a atribuição equivocada de autoria ou a sua não atribuição.
Sabe aquele texto que começa assim? “Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo.”
Não é de Drummond.
Ter ou Não Ter Namorado é de Artur da Távola.
O blog Autor Desconhecido, de Vanessa Lampert, joga um pouco de luz sobre autorias falsamente atribuídas.
Creio as maiores vítimas desse mal atualmente são Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Arnaldo Jabor, Shakespeare e Luis Fernando Veríssimo, mas certamente há outros.
E o problema provavelmente venha de uma mistura fabulosa de fatores:
- má fé
- boa fé
- exercício facilitado da ignorância pela internet, bem como sua propagação
- falta de interesse verdadeiro em relação ao texto propagado
Debata isso no fórum
Autores antigos e contemporâneos são vitimados, para tristeza e irritação dos leitores que conhecem suas obras. Infelizmente, o blog de Vanessa Lampert está meio parado e, como acho que cada vez mais isso será um problema:
- Para debater o tema da atribuição de autoria errada, criei o fórum Autor Desconhecido Não Existe.
- Sempre que você encontrar um poema cuja a autoria acredite estar equivocadamente atribuída, pode iluminar o caso abrindo um novo tópico (Se você ainda não é membro, registre-se).
A mais famosa atribuição equivocada de autoria
Creio que a atribuição errada mais famosa é a de Instantes, poema que começa assim:
Se eu pudesse novamente viver a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais, seria
mais tolo do que tenho sido.
Já vi o Tony Ramos recitando o poema no Vídeo Show, da Globo, todo gabola, certo de que se tratava de uma obra de Jorge Luis Borges.
Eu mesmo cheguei a ter um cartaz de um laboratório, com esse poema impresso colado na porta do quarto quando adolescente.
Depois descobri que, na verdade, ele é de autoria de Nadine Stair.
Errado.
É do escritor e humorista Don Herold, nascido em 1889, morto em 1966.
Pelo menos até prova em contrário.

K
O problema é que talvez não estejamos preparados para estas dificuldades na net.
A internet é Deus e o Diabo.
Então para quem como nós que apreciamos, por exemplo, Drummond, existem sites sérios e oficiais. E livros de papel, graças a Deus.
E não creio ser tão difícil reconhecer um erro grosseiro diante de um Drummond ou seja quem for.
Mas a tendência é a blogsfera ser respeitada como nos países de língua inglesa. E pessoas como o Ale e vc podem se considerar pioneiros nesta busca sensata da seriedade na net.
Mas no fundo nada disso é tão importante.
Recebi uma vez um texto criticando o Lula, super-facista, assinado pelo Luís Nassif. Mandei pro e-mail dele na Folha, que me confirmou estar procurando pra processar o responsável. Fiz o mesmo (alertar o autor) com o Joelmir Beting, com um texto também muito preconceituoso e cheio de erros. O assessor disse também que era um caso antigo e que de vez em quando volta a ser repassado. Nem sou fã, mas deu pra notar a falsidade pelo estilo.
Ainda Há Alguma Poesia
(by Lustato Tenterrara)
Carlos Drummond de Andrade é algo assim, imensurável…
Tem dias que a gente acorda com uma saudade da gente mesmo.
Dos dias que já se foram.
Do menino, moleque de tomar banhos na chuva.
De correr pelas ruas de nossas infâncias,
adentrando nas ventanias vespertinas de fins-de-tarde,
prenunciadoras de chuva e tempestade.
Tem dias que nos dá uma saudade danada do espelho de nossas espinhas juvenis.
Tem dias pra tudo!
Acho que assim Drummond fez o inalcançável poema “CONFIDÊNCIA DO ITABIRANO”, com suas lembranças da cidade-natal:
“Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.”
(principal atividade da cidade)
A vontade de amar,
que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira.
(…)
E o hábito de sofrer,
que tanto me diverte,
é doce herança itabirana
(…)
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas um retrato na parede.
Mas como dói!”
(Carlos Drummond de Andrade)