Por que ler Vidas Secas como uma história universal e não regional

2 4 2007 por Alessandro Martins · 2 comentários

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  • A família retratada entre uma fuga e outra, durante o intervalo de duas estiagens, no livro Vidas Secas, tem apelo universal. Pode interessar a qualquer pessoa que tenha uma noção da precariedade humana. De fato, este romance do escritor alagoano Graciliano Ramos, comumente classificado como regionalista, é a narrativa do precário. Qualidade que se estende aos relacionamentos, aos desejos e à comunicação.

    Um dos momentos mais marcantes do livro, cujos capítulos parecem funcionar independentemente apesar de ordenados, é quando o protagonista Fabiano aceita jogar cartas com um soldado, embora na verdade não o quisesse. Ele simplesmente não encontra palavras e argumentos para recusar o carteado.

    Isso me faz pensar em quantas vezes cheguei a comprar algo de que não precisava simplesmente porque não pude argumentar contra uma vontade criada artificialmente - seja pela publicidade ou outro meio qualquer que não o desejo sincero. As emoções não precisam ser racionalizadas, mas nada impede que emoções e razões dialoguem e entrem em acordo.

    No entanto, nesse quesito, poucos são muito mais avançados que o tosco Fabiano, que ainda no primeiro capítulo chegou a pensar em matar um dos filhos porque ele não era capaz de acompanhar o resto da família na jornada sob o sol.

    Em certo momento, o outro filho por admirar o pai - e admiração é uma das manifestações do amor -, quer imitá-lo na doma dos animais. Tal e qual Fabiano, monta em um cabrito - mais apropriado a seu tamanho - e, no entanto, é rechaçado pelo bicho que o arremessa ao chão e o machuca. Faz lembrar o poema de Carlos Drummond de Andrade:

    Segredo

    A poesia é incomunicável.
    Fique torto no seu canto.
    Não ame.

    Ouço dizer que há tiroteio
    ao alcance do nosso corpo.
    É a revolução? o amor?
    Não diga nada.

    Tudo é possível, só eu impossível.
    O mar transborda de peixes.
    Há homens que andam no mar
    como se andassem na rua.
    Não conte.

    Suponha que um anjo de fogo
    varresse a face da terra
    e os homens sacrificados
    pedissem perdão.
    Não peça.

    Ouço dizer nos meios acadêmicos que tudo isso é fruto da falta de civilidade da família de Fabiano. Mas não vejo muito avanço - físico ou temporal - na maneira como as pessoas se comportam em relação a seus sentimentos.

    A comunicação, para cair em mais um senso comum em relação a esse romance, é árida. Porém uso essa palavra mais em um sentido de ausência, vazio demográfico mesmo. E, quando há, é pedregosa, acontece aos arrancos, dura como o tombo de cima de um animal e capaz de tiros e facadas.

    Sinha Vitória, mulher de Fabiano, acredita que será feliz apenas quando tiver uma cama de couro trançado. Também não vejo mais precariedade na modéstia de seu desejo do que na aparente ambição do jovem que espera ter contentamento no carro do ano. Ou no emprego com o salário ideal.

    Sinhá Vitória e esse jovem - ou qualquer outro personagem que eu possa inventar - localizam seus objetivos fora de si e, por isso, eles são inatingíveis, pois ao serem atingidos já são outros. Movem-se como se corressem atrás da própria sombra.

    Vou evitar falar da humanização da cadela Baleia - animal de estimação da família - porque sobre isso os pets das socialaites platinadas são eloqüentes o suficientes com suas roupinhas caras, suas jóias, seus nomes de gente e seus casamentos e outros eventos sociais-animais badalados. Eloqüência que, obviamente, nenhuma das socialaites platinadas possui.

    Por fim, quando a seca volta, a família precisa novamente deixar a propriedade em que encontrou abrigo e trabalho. Recomeça o ciclo, com a intenção de que aquilo um dia acabe. Mas ao leitor fica a impressão de que tudo se repetirá indefinidamente. Um círculo de precariedades universais.

    PS - Essa é uma das análises possíveis de Vidas Secas e, naturalmente, pode ser melhor desenvolvida. Mas creio que, se houvesse um acadêmico que tivesse culhão (é só uma expressão: não quero excluir as acadêmicas) e vontade de inovar, não seria difícil fazer um paralelo entre a família desse romance com a família Simpson. Não. Eu não estou brincando.

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    2 comentários até agora ↓

    • 1 Lika // 2 4 2007 às 9:49

      O crítico Álvaro Lins classificou VIDAS SECAS como “romance desmontável”. Ele foi escrito - logo depois da saída de Graciliano da cadeia em 1937 - inicialmente como contos independentes entre si. O primeiro foi “Baleia”. Nessa época, o autor morava numa pensão da Rua do Catete e estava à espera da mulher que fora buscar os filhos em Alagoas. Sobre esse período da vida dele, Silviano Santiago escreveu um interessante romance cujo título é EM LIBERDADE.
      Você fez uma análise direta e não só pautada pela regionalidade do mesmo. Espero ler mais análises como essa por aqui.
      Abraços!

      Resposta: Pois é. Era para eu ter lido Em Liberdade para hoje, mas não o encontrei. Lamentável. A professora Naira vai ficar decepcionada… rs.

      Abraços!

    • 2 Larissa R. Vicentini // 14 4 2007 às 20:58

      É impressionante, a cada pesquisa sobre comentários do livro “Vidas Sêcas” que leio eu percebo que ele é muito mais complexo do que eu já acreditava que fosse. Como eu disse em outro mural de comentários. Graciliano Ramos soube montar um “assunto maior” para embutir tantos outros assuntos e críticas de uma forma natural mostrando que tudo está interligado sem querer provar que está, e ele mostra a mediocridade da humanidade de uma forma única. A família de Fabiano me faz pensar em mim, nas pessoas que convivo e em todo resto. Resumindo; eu acho que o autor mostra a vida através de nós mesmos, daí eu faço uma alusão à frase: “A vida é como um espelho, devolve a cada pessoa o reflexo de seus próprios pensamentos”, é um livro complexo porém simples (como a humanidade). Graciliano Ramos falou praticamente tudo de um jeito .. ahhh me fugiu a palavra, mas é isso: Vidas Sêcas é ótimo! É do livro que você lê uma vez mas utiliza ele todo dia!

      Resposta: É impossível não pensar em nós mesmos ao ler Vidas Secas… de fato, ele é universal. Todo mundo é meio Fabiano…

      Abraços,
      Larissa!
      Seja sempre bem-vinda por aqui…

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