O que Graciliano Ramos diz sobre a prostituição dos blogs
14 de março de 2007 | Publicado na Categoria Livros e afins | 9 Comentários »Nesta segunda-feira inicio minha pós-graduação em Literatura Brasileira e História Nacional na Universidade Tecnológica Federal do Paraná, o antigo Cefet-PR – onde cursei Mecânica.
Sem precisar em nenhum momento me deslocar até lá para fazer a inscrição e pagar a taxa de matrícula, duas semanas antes do início das aulas recebo o e-mail dizendo o livro que deverei ler para o primeiro módulo. Até parece mágica.
Tal organização me surpreendeu, visto que em outra instituição frustrei-me diversas vezes. Para não revelar a sua identidade, direi apenas as iniciais dessa universidade: PUC-PR.
O livro que estou lendo para o primeiro dia de aula é Angústia, de Graciliano Ramos. Situado no chamado Romance de 30, pareceu-me uma boa escolha. Pois apesar de o Romance de 30 ser habitualmente ligado ao regionalismo, até onde vi Angústia tem tudo de universal sem precisar sequer relar nessa vertente, por assim dizer, geográfica a não ser por acaso.
O personagem principal, Luís da Silva, é um sujeito aborrecido, um tanto egoísta e com seus toques de humor, voluntário ou não. Enfim, humano. Ele tenta, sem muito sucesso, fazer algo de sua vida medíocre. A partir da página 50, quando começa a interagir mais intensamente com os outros personagens ele se mostra mais solícito em relação às pessoas do que quando está perdido em seus pensamentos um tanto mesquinhos. Enfim. Humano.
Selecionei um trecho, dentre os primeiros parágrafos. Há alguns dias falávamos da entrada dos blogueiros na assim dita mais antiga profissão do mundo e creio que isso tem muito a ver com tal assunto:
Certos lugares que me davam prazer tornaram-se odiosos. Passo diante de uma livraria, olho com desgosto as vitrinas, tenho a impressão de que se acham ali pessoas exibindo títulos e preços nos rostos, vendendo-se. É uma espécie de prostituição. Um sujeito chega, atenta, encolhendo os ombros ou estirando o beiço, naqueles desconhecidos que se amontoam por detrás do vidro. Outro larga uma opinião à-toa. Basbaques escutam, saem. E os autores, resignados, mostram as letras e os algarismos, oferecendo-se como as mulheres da rua da Lama.
É só trocar o vocábulo certo pelo vocábulo correto.
Afinal, para bom entendedor, meia pa.
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Já chegou na cena da prostituta? Nunca vou me esquecer daquela cena.
Hasta!
Resposta: No momento, o Luís começa a se acertar, ou não, com a tal da Marina. A hora em que chegar aviso…
Fantástica e perfeita analogia. Muito próxima da verdade daquelas outras que andamos lendo por aí. A escrita como a arte da vaidade. Essa é muito mais cabível. Abraços.
Resposta: Se bem que um pouquinho de vaidade nunca é demais. :-)
Eu também consegui criar a cena na minha mente (a da prostituta), e por muito tempo ela não saiu. E também vi como uma frase pode ser aplicada em outros campos, sem mudar o sentindo. Como algo pode ser tão atual, hein?
Voltando ao livro, acho que o nome não para a obra não poderia ter sido melhor: essa sensação transpassa as páginas e chega a nós muito facilmente.
Agora mudando de novo, estou anciosa esperando seu post sobre nosso querido “Gabo”. Será que esse post já passou e eu que estou “boiando”??
Esse ano é muito especial, e aguardo ler algo de você, tá??
Se já passou, me desculpe a “lerdeza” e me indique o post, tá??
Abraços.
Resposta: O Gabriel Garcia Marquez está fazendo aniversário é isso? Desculpe, rs… é que não sou muito ligado a efemérides… hahaha.
Beijos,
do Ale.
Alessandro, você cursou mecânica? E como foi parar em literatura? A trajetória deve ser, no mínimo, interessante.
Vi o comentário da Nanda sobre Gabo. Gostaria de te apresentar à Socorro Acioli, jornalista, pesquisadora e escritora, que fez, em dezembro passado, o ‘taller’ de contos dele em Cuba. O blog dela é http://as-borboletas-de-fevereiro.blogspot.com/
Ela escreveu algumas matérias sobre o ‘taller’, e há link para elas em seus posts.
Resposta: No segundo-grau, eu escolhi mecânica porque não sabia o que queria. Ao fim do curso, sabia o que não queria. Logo escolhi, no vestibular, o que mais se aproximava do que eu gostava, escrever. Jornalismo. Tenho me virado bem, mas espero me virar melhor daqui pra frente. :-)
Beijos!
Maravilha, Alex. A citação do Graciliano caiu como uma luva.
Resposta: Quem diria que Graciliano versava sobre essas coisas, não?
Adorei o seu conto dos dois amigos.
Abraços!
O titulo do post ficou ótimo. A primeira coisa que pensei: como assim Graciliano e blogs?
As colocações dele são muito propícias, e é triste que uma ferramenta tão fantastica quanto os comentários se prestem a manter o comportamento de “blogar” de blogueiros que não acrescentam nada (e em acrescentar vale muita coisa, só não vale blog vazio – como está ficando o meu comentário neste exato momento rs).
Literatura Brasileira? Gostaria muito de fazer uma especialização equivalente que tem aqui na UEL. Se continuar aqui em Londrina, ainda pretendo fazê-la. Boa sorte com o curso, espero que seja ótimo!
Sobre o livro do Graciliano Ramos, não é a toa que o estilo dele é chamado de “regionalismo universal”, justamente por suas ações acontecerem em um espaço geografico/cultural bem demarcado, mas sua narrativa tratar de sentimentos que perpassam a vida de todos – ou quase, vai – seres humanos.
Quanto ao comentário da Nanda, sabe que eu também pensei: será que o Alessandro vai comentar algo sobre os 80 anos do Gabo?
Beijos
Resposta: É, rs… ao que parece não sou muito ligado a efemérides… uma hora dessas eu escrevo algo sobre o Gabriel Garcia Marquez…
Beijos!
Nossa… você quer por fogo na blogosfera hehehehe
Isso vira flame num instante!
Mas, a analogia ficou perfeita, muito bem analojozado (vixi, inventei agora)
Abração
ou seria analogizado?
Resposta: Ou analogado? Rs… sei lá. Não importa. E acho que não vira não. Esse post já tem uns três dias e se não virou até agora não vira mais… sabe como é essa cultura do presente imediato. Só mesmo arqueologistas virtuais vão se interessar por passado tão remoto…
Abraços!
Eu já prefiro as coisas mais antigas
O tempo não me afeta ;X
Resposta: Acho que eu também sou old fashion….
Abraços!