A escola é chata

16 2 2007 por Alessandro Martins · 13 comentários

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  • O mineiro Rubem Alves, além de pedagogo, é excelente escritor e cronista. Mesmo seus livros voltados para a pedagogia, como Por Uma Educação Romântica, têm virtudes literárias em um sentido mais geral, divertidos e inspiradores.

    Diz ele, em entrevista à Revista Época:

    Não é de hoje que a escola é chata. Ela sempre foi assim e isso acontece porque as coisas são impostas às crianças. A prova de que uma criança gosta de ir à escola é se, na hora do recreio, ela está conversando com os amigos sobre as coisas que a professora ensinou. E não se vê isso. Então fica evidente que elas gostam da escola por causa da sociabilidade, dos amiguinhos, por causa do recreio. Mas elas não estão interessadas naquilo que se ensina na escola. Você acha que um adolescente, vivendo na periferia, pode ter interesse em dígrafos? Não tem interesse nenhum. Existe outra expressão terrível: grade curricular. Já brinquei que deve ter sido cunhada por um carcereiro.

    Recomendo a leitura completa da entrevista, que faz pensar no tempo perdido naquelas cadeiras horrorosas das escolas.

    Resolvi falar sobre ele porque, assim que achar o livro novamente, quero escrever sobre uma idéia desse escritor que, na verdade, é comum na casa de muitas pessoas: a biblioteca de banheiro.

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    13 comentários até agora ↓

    • 1 Silvia S. // 16 2 2007 às 14:28

      Boa, muito interessante, a entrevista. Eu acho que, ao menos na educação infantil, antes de entrar a famigerada “grade curricular”, algumas escolas estão trabalhando da maneira que o RA defende. O conteúdo é trabalhado de acordo com a curiosidade dos alunos. Ao menos eu vejo isso na escola das minhas filhas. A mais velha (5 anos) chega em casa e, de repente, começa a conversar sobre algo que aprendeu na escola, na maior animação. Acho que a escola tinha que ser assim sempre. Ao procurar uma escola para as minhas filhas, é isso que eu tenho em mente: não quero uma escola tradicional em que o professor é o dono do saber. Eu passei por isso e só terminei a escola aos trancos e barrancos. Não tinha o menor prazer em estudar. Porque temos prazer em aprender quando o assunto desperta o nosso interesse, nos faz brilhar os olhos. Para elas, quero uma escola que permita que elas pensem, pesquisem por conta própria, perguntem, conversem, tenham prazer em aprender.

      Infelizmente, acho que mais para a frente fica bem mais difícil de conseguir isso, de fugir daquele modelo do professor “dono da verdade”. Porque os alunos passam a ter que seguir a tal “grade” (coisa feia mesmo, o RA tem razão, grade tem é em prisão), e o professor perde a liberdade de ensinar o que os alunos querem aprender.

      Resposta: Creio que a educação fundamental é o grande momento para meios diferenciados de ensino. A partir dela é que a criança poderá, no futuro, enfrentar a liberdade limitada dada pelas grades do currículo… é um passo arriscado, no entanto. Muitos pais temem - e com razão - que seu filho fique para trás em relação às outras crianças da educação tradicional. Não se pode esquecer que mesmo nessa área existe aquilo que há de alternativo e aquilo que há de alternativóide…

      Abraços!

    • 2 Thássius Veloso // 16 2 2007 às 15:18

      Gostei do trecho. Quero ler a entrevista. Sim, é muito chato ter que acompanhar uma “grade curricular” que em nada estimulado o próprio aprendizado. As crianças deveriam ser instigadas a aprender, a questionar, a duvidar e a debater. Mas normalmente se limitam a copiar e decorar. E depois, esquecer.

      A Silvia S. citou uma coisa importantíssima, que é a figura do professor que tudo sabe e nunca erra. Somente no ensino médio os professores falavam que poderiam fazer uma conta erradamente ou então classificar sujeito como predicado. Mas, pelo menos, admitiram.

      Essa discussão vai longe. O modelo de educação brasileiro está quilômetros distante do que seria ideal ou, minimamente, que fosse mais bem sucedido.

      Resposta: Às vezes, os professores são bem intencionados, mas eles também estão sempre por trás das tais grades, com sua liberdade limitada. O indivíduo pouco pode contra as instituições. As mudanças nesse campo sempre serão lentas, creio…

      Abraços,
      Thássius.

    • 3 Silvia S. // 16 2 2007 às 16:27

      E porque os pais temem que seus filhos fiquem para trás - e também porque todos morrem de medo da concorrência do mercado no futuro (os pais, que fique bem claro) - tem muita escola por aí que oferece apostila pra criança de 3 anos, que enche a boca pra falar que todos os seus alunos já estão escrevendo com 4, 5 anos de idade… Socorro! Alguém venha salvar nossas crianças!

      Resposta: Afinal, será que uma criança precisa mesmo saber escrever com três anos de idade, não é?

    • 4 catatau // 16 2 2007 às 21:15

      Concordo com a abordagem do Rubem Alves, mas tem algo que talvez ele não considere: escola não é coisa de criança (não é um projeto feito de criança para crianças); por mais agradável que um dia possa ser, pertence a um universo, ou a um fim, que é adulto. Mas - penso em Deleuze -, talvez no dia em que a escola for tão legal que as crianças fiquem conversando sobre conteúdos no recreio, talvez nesse dia, as crianças deixem de ser crianças. Suas criações expontâneas e “des”regradas são simplesmente expressões de sua condição infante.

      Resposta: Seu raciocínio está certo, mas a julgar pela média dos “adultos” a escola atualmente não os está fazendo maduros o suficiente. Isso se ficarmos na questão da maturidade - algo mais emocional e que talvez não seja o papel da escola cumprir. Se passarmos para algo mais simples como a suficiência em leitura, o que mais encontramos por aí é o que chamamos de analfabetismo funcional. O sujeito sabe juntar as letrinhas e ainda assim é incapaz de interpretar um texto. Creio que, se a finalidade é preparar uma criança para um posterior mundo adulto - no bom sentido do termo -, a escola em um sentido geral está falhando apesar das exceções. Por exemplo, não consigo imaginar uma instituição mais capaz de podar as manifestações espontâneas, a que você se refere, que a escola, com sujeitos ativos que vão desde o diretor até os próprios colegas. Se as crianças um dia chegarem a conversar com seus colegas sobre os conteúdos, durante o recreio, certamente será porque eles estimulam esse seu lado espontâneo. Talvez então elas não tenham se tornado adultas, mas os adultos passem a ter mais daquilo que as crianças, hoje, perdem nesse processo todo.

      Abraços e bom dia!

    • 5 Li // 17 2 2007 às 9:32

      O problema é muito maior do que parece. sou daquelas pessoas que acredita que a educação começa em casa. A educação em todos os sentidos. Aqui, o ensinamento.
      A responsabilidade não é só do professor, que muitas vezes, têm a formação precária também, apesar da boa vontade. A responsabilidade é também dos pais, da família.
      Eu chego em casa 11:00 hs da noite e ainda tenho ajudar na tarefa da molecada. Confesso, que em algumas vezes, tenho que pesquisar um livro de gramática ou de matemática pra poder ajudá-los. Mas ajudo-os, explico e tento, da melhor forma, ajudar os professores.
      Nas reuniões de pais e mestres que existem nas escolas, eles (os mestres), nos cobram a presença lá, na instituição e ainda insinuam que os pais que não frequantam tais reuniões, são pais omissos. Pais omissos são os que vão, criticam, reclamam, e na prática, nada fazem, só fazem volume. Ou seja, não sabem nem o que o filho aprendeu ou deixou de aprender, não sabem qual a real dificuldade deles na escola, em termos de aprendizagem.
      A escola não é chata.
      Regras são chatas.

      O que me deixa indignada em termos de educação, são alunos adultos que pagam por seus estudos, mensalidades assustadoras e no entanto, ficam brincando, batendo papo dentro da sala de aula, enquanto o professor, bom ou não, está tentando ensinar.

      Temos que ensinar nossos filhos a amar o saber e ter sede disto. Assim, tudo torna-se mais leve.

      bjs.

    • 6 Mario // 18 2 2007 às 12:18

      Alessandro, sempre tive essa sensação de chatice. E olha que fiz cinco anos de faculdade, quer dizer, passei um tempão sentado no banco da escola (ou das escolas, se preferir). Acho que algo tem que ser revisto, principalmente a parte pedagógica, incorporando novas técnicas de aula e participação. Participei de diversos cursos motivacionais, alguns se estendiam por três dias, e nenhum deles era chato. Então onde está o problema? Porque um curso é excelente e a escola é chata? Creio que é uma qüestão de técnica. Grande Abraço, Mário.

      Resposta: Eis que Rubem Alves responde assim:

      Estremeço quando me dizem que há entrevistadores de televisão e de jornais à minha espera. Sei, de antemão, a primeira pergunta que vão me fazer: “O que é que o senhor acha da educação no Brasil?”. A pergunta é banal porque eles já esperam uma resposta estereotipada. Querem que eu denuncie a falta de verbas, a condição de indigência dos professores, o mau aproveitamento dos alunos etc. Mas isso todo mundo já sabe. É um equívoco pensar que com mais verbas a educação ficará melhor, que os alunos aprenderão mais, que os professores ficarão mais felizes. Como é um equívoco pensar que, com panelas novas e caras, o mau cozinheiro fará comida boa. Educação não se faz com dinheiro. Educação se faz com inteligência. E aí, frustrando as expectativas dos entrevistadores, eu falo sobre coisas lindas que estão acontecendo por esse Brasil afora, no campo da educação. Porque o fato é que, a despeito de todas as coisas ruins e andando na direção contrária, há professores que amam os seus alunos e sentem prazer em ensinar.


      Abraços,
      do Ale.

    • 7 Paulo Polzonoff Jr // 18 2 2007 às 20:50

      Poxa, a escola já está uma merda do jeito que está, toda modernosa, cheia de Rubens Alves para dizer que a criança precisa aprender se divertindo (blerg!) e você ainda dá corda pro rapaz?

      Nossa geração aprendeu numa escola muito mais severa do que esta que está aí. E muito menos severa do que a dos nossos pais e avôs. Do the math!

      Criança não gosta de estudar. Ponto. Crian’ça gosta de brincar. Adolescente não gosta de estudar. Ponto. Adolescente gosta de trepar. É papel da escola contrariar crianças e adolescentes. Simples assim.

      Resposta: Não acho que a escola deva ser permissiva, nem acredito que o Rubem Alves ache que precisa ser. Você e eu também crescemos com um tipo de escola que contrariava a criança - não no sentido de ser um obstáculo contra o qual o crescimento se espreme para ser mais consistente, mas como algo que simplesmente faz com que o crescimento não aconteça ou aconteça para o lado errado. Reconheço que há por aí um tipo de ensino modernoso do qual se deve fugir, mas é engraçado pois você continuamente fala sobre analfabetismo funcional e o modo pouco inteligente como as escolas introduzem a leitura às crianças - com Machados de Assis e afins na hora errada por exemplo - e quando depara com um Rubem Alves, arranja algum motivo para contrariá-lo. A escola talvez com seu ensino que contraria os estudantes talvez condicione de fato as mentes mais robustas a contrariar continuamente. De minha parte, faz tempo que eu desisti da idéia de que o aprendizado pode vir com mais perfeição do sofrimento. É muito mais fácil aprender as coisas através do prazer. O sofrimento também ensina e, eventualmente, deve acontecer na vida, mas não deve ser uma regra e, acima de tudo, por favor, que não aconteça no lugar onde as crianças e adolescentes aprendem. Escola é um saco mesmo, mas não há razão para ser.

      Abraços e bom domingo!

    • 8 catatau // 18 2 2007 às 21:11

      é, Alessandro,

      Talvez tenhamos dois elementos: um, o do fato da escola, digamos, ‘ideal’, cercear a espontaneidade das crianças. Outro, o da escola ‘real’ estar criando crianças analfabetas funcionais, sem qualquer caráter público… Eu me referia à primeira alternativa. Quanto à segunda, como se pode sugerir na tua resposta, está bem nítida, pois é o que ocorre!

      abraço,

    • 9 Rui de Lucca // 22 2 2007 às 16:16

      Discordo um pouco do Polzonoff. Eu, por exemplo, nos meus idos de treze para quatorze anos, formei uma trinca (sim, o termo é do Bandeira) onde eu e mais dois colegas líamos livros de literatura, teorias de química e outros de biologia muitas vezes desvinculados da pauta diária da escola. Naquela época nostálgica, nós só aprendemos a gostar de estudar por causa do nosso autodidatismo (e também por nos encontramos e formarmos uma trinca, quando uma centena de outros adolescentes só queriam saber de trepar, ou jogar futebol, ou assistir televisão a tarde toda). A escola para mim sempre foi chata, e acredito que infelizmente continuará sendo. O aprendizado sistemático é uma coisa muito individual e, às vezes, caro demais para ser conquistado.

      Resposta: Talvez se as matérias citadas pelo Paulo fossem acrescentadas aos currículos as crianças e os adolescentes se interessassem mais… vou mandar a sugestão ao MEC. Espero que acatem…

      Eu, por minha vez, era um voraz leitor de enciclopédias. Adorava as figurinhas…

      Abraços!

    • 10 Angelo Machado: neuroanatomista, especialista em libélulas, autor infantil // 27 2 2007 às 19:17

      [...] Lembra que já falamos sobre como é mais fácil aprender as coisas sobre as quais se tem interesse? Pois é. Mais uma coisa que acabou me chamando a atenção. [...]

    • 11 Rosana O. // 2 3 2007 às 20:48

      A escola é chata, mas aprender não. Crianças gostam de aprender, adolescentes também. Crianças estudam quando são estimuladas. Tenho três filhos em idades diferentes. Aprenderam várias coisas sozinhas,estudando sim, porque acham interesantes. Isso funciona com todo mundo.Mas não na escola.
      Vejo a escola muito preocupada, e os pais também, em garantir uma formação eficiente para o mercado de trabalho. Uma a busca quase insana pelos melhores resultados em vestibulares, concursos públicos… Aprendizado que é bom, nada.
      Eu quase ia escrecer que discordava do Paulo, mas não. O papel da escola é contrariar as crianças adolescentes e adestrar pra vida….

      Resposta: É incrível como a escola, nos últimos anos, têm sido campeã em ser uma fábrica de pessoas que não gostam de aprender… a criança entra gostando e sai não gostando. Isso de um modo geral…

    • 12 lice // 29 7 2007 às 1:43

      Não se esqueçam que nos colégios publicos é uma professora para mais de trinta alunos,o salário delas é uma ofensa.As crianças da periferia precisam aprender a sonhar,no Brasil o sonho é ser atriz ou jogador de futebol, tem gente na escola falando “é nois fessora”.

    • 13 isabella silva soares // 14 11 2007 às 16:32

      oi eu tambem sou uma criança…Amei o que você disse.Eu tambem sou uma criança estou na 4 serie e tenho 10 anos mais já entendo tudo sobre aquecimento global e tudo mais… Tambem não gosto muito de estudar só de aprender mais hoje me deu uma vontade de entrar na internet e ver isso.Entrei tambem no aquecimento global…Mais parabens você deve ser um artista!!beijos e que continue assim estudioso…isabela

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