Se você ainda tinha dúvida se devia arranjar um livro do Hunter S. Thompson para dar uma olhada, separei um trecho da reportagem O Kentucky Derby é Decadente e Degenerado, presente no livro A Grande Caçada Aos Tubarões, para você dar uma olhada.
Só o título da matéria já é suficientemente bacana.
É a cobertura de uma importante corrida de cavalos que acontece todos os anos no sul dos Estados Unidos. Thompson está lá acompanhado de um inusitado ilustrador provavelmente irlandês que deve captar em imagens o espírito da coisa toda.
Não fica bem claro se o ilustrador existe ou se é uma invenção da mente doente de Thompson, assim como a lata de spray de pimenta que ele teria comprado e usado no chefe dos garçons de um restaurante.
O fato é que eles estão lá e ele conta mais ou menos sobre a cobertura. Ele quer um rosto para ilustrar sua matéria. Mas um rosto específico:
É um rosto que eu tinha visto umas mil vezes em todos os Derbys a que fora. Na minha cabeça, eu o via como a máscara da aristocracia do uísque - uma mistura pretensiosa de bebida, sonhos desfeitos e uma crise de identidade terminal. O resultado inevitável de muitos cruzamentos entre parentes numa cultura fechada e ignorante.
E aqui começa um trecho de uma ironia que consegue ser a um só tempo grosseira e fina. Finíssima. O tipo de coisa que eu adoro:
Uma das principais regras genéticas para a criação de cachorros, cavalos ou qualquer outro tipo de puro-sangue é que o acasalamento entre parentes próximos tende a ampliar os pontos fracos numa linhagem, assim como os pontos fortes. Na criação de cavalos, por exemplo, é definitivamente arriscado cruzar dois cavalos rápidos que também são muito loucos. A prole provavelmente será muito rápida, mas também muito louca. Então o truque na hora de cruzar puros-sangues é reter os traços bons e peneirar os ruins. Mas o cruzamento de humanos não é supervisionado com tanta sabedoria, particularmente numa sociedade sulista rígida, onde o cruzamento entre parentes bem próximos não é apenas estiloso e aceitável como bem mais conveniente - para os pais - do que deixar a prole livre para encontrar seu próprios pareceiros, pelas suas próprias razões e às suas próprias maneiras.
Bem, ainda não sei se eles encontraram o tal rosto. Ainda estou lendo a parada. Mas esse é o tipo de coisa que eu gostaria de ter escrito caso tivesse a oportunidade. Percebe o quanto é divertido?
Ah sim. Estou surpreso ao ver que, de cabeça raspada, Thompson é muito parecido comigo.
8 comentários até agora ↓
1 leanDrow // 24 1 2007 às 20:02
No mínimo, interessante. Isso me faz lembrar, e conseqüentemente associar, essa frase do Sr. Thompson com uma de Shakespeare , aonde ele diz que “há muito dos seus pais em você, mais do que você imagine”.
Resposta: Então… não tenho certeza, mas acho que sei a que texto você se refere. Porém creio que ele não seja de Shakespeare, não… é um desses que acabam se espalhando pela internet com a autoria trocada…
Mais informações sobre isso aqui: http://pages.citebite.com/r8×7c6s7wyug
Na dúvida, é só procurar alguma referência nas obras completas: http://www.psrg.cs.usyd.edu.au/~matty/Shakespeare/
O caso mais famoso desse tipo de coisa é o poema Instantes, atribuído a Jorge Luis Borges. E tantos outros textos atribuídos a Drummond, Quintana, Veríssimo e até Arnaldo Jabor… as pessoas agem de boa fé e espalham o engano.
Esses dias eu me enganei ao contrário. Recebi o texto Receita de Ano Novo, do Drummond. Eu jurava que não era dele. E era. :-)
2 Thássius Veloso // 24 1 2007 às 22:38
O sr. gosta desse tal Borges! xD Nada a declarar sobre o post, mas sobre a resposta do comentário do leanDrow: adoro Jabor. Gostaria que mais livros dele fossem lançados.
Com essa distribuição em massa de powerpoints tornou-se comum creditar textos ao autor errado, fruto de um descuido de quem iniciou a ‘corrente’. Espero que isso não acontença com meus próprios textos. :p
Resposta: Creio que talvez eu devesse falar mais sobre esse assunto. As pessoas não levam a sério, normalmente, mas é importantíssimo. O blog Autor Desconhecido fez isso mas está parado. Porém é boa referência. Mas, ainda assim, quantos mais falarem sobre isso melhor.
Eu tenho medo de que, no futuro, precisemos pagar sujeitos para atestar a autoria de uma obra literária assim como é feito para obras de artes plásticas. Ou de encontrar um poema que claramente não é de Drummond em uma antologia poética de Drummond.
Esperemos que não. Oremos, como diz o outro.
3 corvo // 24 1 2007 às 23:16
Cara, sinceramente eu queria te ver nos tops do blogblogs, quando for lançado. Não sei se és conhecido… mas dada a qualidade do teu trabalho, não vai demorar a ter vários fãs como eu.
Gosto quando cita trechos de livros, fala sobre reportagens, sobre literatura, sobre telemarketing hehe.. porque é algo que vc demonstra dominar MESMO. Só não publique notícias, memes ou qualquer coisa do tipo. Não digo que você está fazendo, até pq acho q nem vi isso por aqui ainda. Mas é só pra dizer que é algo q não combina tanto com teu estilo e blogs de notícias e coisas ‘da moda’ já ta sobrando por aí. Gosto do teu blog porque ele é diferente e isso que é a carta na tua manga.
Parabéns pelo trabalho. É o que me motiva a abrir o feed ainda. Grande abraço.
Resposta: E ler um comentário como esse é que é o tipo de coisa que me motiva a continuar a alimentar o feed dos leitores, com o perdão do trocadilho.
Muito obrigado!
Por vezes, eu me sinto como o sujeito que segura o livro O Blefe ali em cima. Afinal, não sou uma autoridade em literatura e, mesmo com o diploma de jornalista debaixo do braço, não me sinto uma autoridade em jornalismo.
No entanto, procuro evitar nos textos os toques de falta de sinceridade. Tudo que escrevo é algo que de fato quero compartilhar com um monte de pessoas. Mas se for meia dúzia bem intencionada já está bom. E isso tem dado resultado pois estou muito feliz com o retorno que tenho obtido das pessoas que lêem o que escrevo.
Abraços e, mais uma vez,
obrigado pelo comentário!
PS - Um memezinho de vez em quando bem caprichadinho, né?
4 Marco // 25 1 2007 às 9:02
Conheci o Hunter S. Thompson por causa do filme, em 1998, Medo e Delírio. Fui atrás de mais um filme do Terry Gilliam, que conhecia da época do Monty Python e do filme Brazil, e acabei descobrindo este outro louco (no bom sentido). Na verdade odiei o filme na primeira vez que vi. Depois, vendo mais algumas vezes, acabei gostando, mas, mesmo não tivesse gostado do filme, pelo menos me fez ter curiosidade pelo original e muito mais interessante H. S. Thompson…
Resposta: Gosto muito do Johnny Deep nesse filme, bem como em outros papéis dele. Já vi Medo e Delírio umas tantas vezes. O que mais me agrada nele é que não há uma história para contar, mas apenas situações para mostrar. Mas os textos do Thompson são ótimos também. Convido-o a ler o que puder do Joel Silveira, no entanto, muito mais ácido e tão divertido quanto…
5 Marco Carvalho // 25 1 2007 às 10:23
Putz cara, seu último parágrafo destruiu o meu comentário… eu ia ter peguntar se Hunter S. Thompson é pseudonimo de Alessando Martins?
Ou a morte de Hunter foi só uma armação para seu próximo artigo bombástico no qual ele vai revelar como planejou a própria morte, fez uma dieta revolucionária que lhe rendeu um rejuvenecimento de uns 30 anos, veio para o brasil, se empregou como jornalista local e finalmente irá dizer que no túmulo dele nos EUA está enterrado um chefão da máfia que ele matou a tiros.
Pena que com sua última frase você desqualificou minha teoria da gonzolice :P
Abraços
Resposta: Caro Gonzolino,
na verdade meu último parágrafo foi para gerar ainda mais dúvidas. :-)
Abraços!
6 Ana // 25 1 2007 às 13:17
Tem um tempão que estou atrás deste filme… Agora então, que vc tem falado muito sobre o Thompson… Tô adorando a sua série Gonzoliana sobre ele… Tenho acompanhado e seguido todos os links, muito legal!
Acho q preciso comprar uns livros…
Ah! E vc está certo sobre como é melhor comprar livros e CD’s pela internet. Na livraria nunca consigo me decidir, dá muita angústia mesmo.
Mas pela net a gente não fica livre da angústia não, é muita coisa boa e (muitas vezes) barata junta, dá vontade de sair comprando tudo!
Beijo
Resposta: É verdade. E o pior é que, pela internet, fica uma leve impressão de que você não está gastando de verdade…
7 Rogerio Prado (oProfeTa!) // 6 8 2008 às 15:51
O Sr Thompson detona!!
kkkkk
simplesmente genial!
8 Alessandro Martins // 9 8 2008 às 13:35
Mr. Thopson rules the world, meu caro Rogerio!
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