Um bom entrevistador não pode se intimidar. Deve ser respeitoso com o entrevistado, mas não pode se intimidar.
Por exemplo, o Hunter S. Thompson. Bem o cara, que não era ninguém, foi entrevistar Muhammad Ali. Que era simplesmente o Muhammad Ali. Nem por isso, Thompson teve medo de fazer perguntas aparentemente tolas ou que aparentemente substimavam o entrevistado. Aquelas do tipo que o repórter iniciante pensa: “Ah, melhor não perguntar isso, se não ele vai pensar que eu sou estúpido”.
Às vezes são dessas perguntas que saem as respostas mais interessantes.
Por exemplo, na entrevista que está no livro A Grande Caçada aos Tubarões - que leio no momento -, quando Thompson pergunta:
… como você foi parar em uma situação em que tinha tanto a perder e tão pouco a ganhar, lutando contra Leon?
A pergunta soa quase como se Thompson estivesse dizendo que Ali havia sido estúpido o suficiente para se meter em encrenca. E ali responde com uma pergunta.
Como fui parar no quê?
Nessa hora o sujeito pensa: “Bem, é o Muhammad Ali bem na minha frente. Talvez ele não tenha entendido a pergunta. Mas talvez tenha ficado ofendido. Na dúvida, é melhor perguntar outra coisa.”
Mas Thompson, ou por ser esperto ou por ser burro ou por ser louco, continua e reformula a questão.
Você se colocou numa situação em que era quase impossível ganhar, em que você tinha muito pouco a ganhar e coisas pra diabo a perder. Me pareceu uma péssima estratégia…
Tudo bem. É só o maior lutador de boxe de todos os tempos bem ali olhando com sua cara feita a machado pra você, que disse que ele usou de péssima estratégia.
Mas ele responde. E a resposta é muito boa.
É assim que funciona, é assim que tem sido desde que assumi a coroa. Eu não tinha nada a ganhar lutando contra o Bugner. Não tinha nada a ganhar quando lutei com muitas pessoas. (…) Ah é, eu gosto da pressão, preciso da pressão… o mundo gosta… as pessoas gostam de ver milagres… as pessoas gostam de ver… as pessoas gostam de ver azarões se dando bem… as pessoas gostam de estar presentes quando a história está sendo escrita.
Creio que é esse um dos segredos da permanência histórica de caras como Muhammad Ali. Eles conseguem ser os maiores e, em todas as ocasiões em que provaram o ser, eles eram os azarões, aqueles que diante das piores perspectivas, com tudo a perder e nada a ganhar, viraram o jogo.
Tudo isso bem explicadinho em quatro ou cinco linhas na voz de uma autoridade no assunto.
Mas, para isso, Thompson precisou se arriscar e levá-lo para as cordas. Nessas ocasiões é que surgem as melhores combinações de golpes.
Dica
Outra boa tática em uma entrevista é repetir uma pergunta mas formulá-la de outra forma. A pior coisa que pode acontecer é o entrevistado dizer que já respondeu a questão. As melhores possibilidades, porém, são ele responder mais detalhadamente - e, com isso, você passará a entender melhor o tema - ou, se essa for sua intenção, ele pode entrar em contradição.
E, então, mais corda, socos, chutes, clinches, pontapés e golpes baixos.
Mas não use isso com freqüência.
8 comentários até agora ↓
1 leanDrow // 23 1 2007 às 20:49
Olha, vou te falar que gostei muito da sua dica, da entrevista, muito boa mesmo.
Esses livros do Sr. Thompson parecem ser realmente bons…
Resposta: Eles são divertidos para dizer o mínimo… muito embora eu prefira milhões de vezes o estilo de reportagem de um Joel Silveira. Recomendo muito.
2 Hugo Sousa // 23 1 2007 às 22:20
Muito boa a dica e muito interessante o livro, mas melhor de tudo é o filme do Muhammad Ali, esse eu já tive o prazer de ver. Mas acho que se esse entrevistador fize-se algo parecido com o Mike Tyson, arriscava-se a ficar sem uma orelha.. hehe
Abraço…
Resposta: Eu também recomendo o documentário Éramos Reis, sobre a luta no Zaire. Não tinha na locadora perto de casa e acabei vendo o filme, que ainda não tinha visto… muito bom também… gosto do Michael Mann apesar daquela história de México de uma textura e EUA de outra em Traffic…
3 Alessandra // 24 1 2007 às 9:28
Pois é, dificilmente uma informação interessante sai de uma entrevista chapa branca. Mas entrevistar, eu acho, é uma arte, algo que exige um tanto de técnica e um tanto de sensibilidade. Um entrevistador habilidoso tira quase qualquer informação do entrevistado, certeza. Ainda mais se ele souber ler nas entrelinhas, e mais do que prestar atenção no que a pessoa está dizendo, conseguir perceber o que ela está tentando esconder. Aliás, talvez um jeito bom de acabar com as torturas seja contratar bons entrevistadores ao invés de “interrogadores”. As informações com certeza seriam mais confiáveis.
Resposta: Pena que muitas boas entrevistas não se transformam em ping-pong como no caso dessas. Mas, às vezes, o melhor é usar a entrevista para basear um bom texto mesmo, caso o entrevistado não seja muito articulado…
4 Ed // 24 1 2007 às 14:30
Boa abordagem do tema, Alessandro. Entrevista é um gênero jornalístico que vem sendo bastante corrompido, especialmente pela tv. Entrevista não é um bate-papo, como parecem demonstrar os programas televisivos, e sim uma matéria formada por duas (ou mais) vozes, na qual manda o jornalista, ora (!).
Abraço.
Resposta: Isso aí! QUEM É QUE MANDA AQUI? Pronto, pronto… o surto de ditador já passou…
Muito embora, algumas das melhores entrevistas dão a impressão de serem um bate-papo mesmo. Apenas têm um dos sujeitos que fala mais que o outro… é só não perder o controle da situação…
Abraços!
5 Thássius Veloso // 24 1 2007 às 15:25
Gostei bastante da análise da passagem. A entrevista, no seu todo, quando o jornalista se prepara dias antes para ela, quando ocorre algum imprevisto, quando o entrevistado “fala demais” (no sentido de falar mais do que deveria, se entregar), tudo isso me fascina. Não é à toa que pretendo seguir o jornalismo.
Resposta: Acho que você está confundindo o Thompson com o Ali. Ele é que se prepara dias antes de uma luta, contra os imprevistos e tudo o mais. Acho que você quer ser boxeador e não jornalista. Repita comigo: eu quero ser um boxeador. :-)
6 Tuca Hernandes // 24 1 2007 às 17:55
Pra mim, dependendo de quem está no ringue, não existem perguntas imbecis. Como você salientou, há sempre uma possibilidade da pessoa voltar ao mesmo tema de maneira diferente, funcionando até como exercício pra reafirmar a coerência com a qual um assunto vem sendo exposto. Ou não, nos casos onde há um nocaute por contradição. Em suma, pessoas interessantes sempre renderão ótimas respostas, muitas delas advindas de perguntas aparentemente banais. Quem vive se esquivando, fraco peso pena é. Mas hoje em dia, muitos usam algo chamado de “assessor de imagem”. Fracotes.
Resposta: Acho que em alguns casos, mesmo que o entrevistador seja uma droga, o entrevistado acaba se sobressaindo… tenho a impressão que ouvir o Ali, ainda que não tivesse sido feita pergunta alguma a ele, seria interessante… o cara falava pelos cotovelos e falava bem.
7 Santi // 9 4 2008 às 22:28
Vc sabe aonde eu posso encontrar o documentário Quando éramos reis?
abraço
8 Alessandro Martins // 11 4 2008 às 13:21
Santi,
acho que qualquer boa locadora tem.
Abraços!
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