O Velho da Montanha Errante na Biblioteca de Babel
13 de janeiro de 2007 | Publicado na Categoria Livros e afins | 6 Comentários »A internet e seu fácil acesso a textos, músicas e vídeos têm feito com que muitas pessoas a comparassem à Biblioteca de Babel (desculpem: só encontrei o texto completo em espanhol), conto de Jorge Luis Borges. Concordo que assim seja, mas apenas em parte. Não restritivamente, por considerar que a internet não chegue a tanto, mas porque, ao mesmo tempo, vai além.
Primeiro, o não chega a tanto
A Biblioteca de Babel de Borges – ou antes o Universo, como inicia o texto do argentino – tem todos os livros possíveis. Qualquer um que você possa imaginar. Um que seja, do início ao fim constituído das letras rty, por exemplo. Ou um em em que Shakespeare comente os diálogos da série Seinfeld. Todos. É até divertido fazer uma lista de livros que gostaríamos de ter lido, mas que só existiriam em uma biblioteca como essa.
A grande questão colocada é que, diante, de um número infinito de livros de nada adianta ler um ou dez milhões de livros, em termos quantitativos. Qualquer quantidade sempre será infinitamente pequena diante da quantidade total. Não faz diferença, portanto. Mas nem é preciso ir tão longe. Basta entrar em uma livraria qualquer e deparar a quantidade de livros interessantes à disposição. Impossível evitar uma certa ansiedade.
É um sentimento de incapacidade parecido com o do personagem de Sean Connery, em O Nome da Rosa, filme baseado no romance de Umberto Eco, saindo do incêndio na biblioteca a carregar uns poucos volumes que conseguiu salvar do fogo. O resto foi todo perdido. No livro e no filme, aliás, a biblioteca e o monge bibliotecário – cego – são uma óbvia homenagem de Eco a Borges.
A internet é isso. Não chega a ser infinita, mas é suficientemente grande para parecer. E está pegando fogo. De todas as formas tentamos reter as informações que nos interessam, pois logo elas desaparecerão – não da “memória da internet” – mas no labirinto de links e na quantidade de informações extras que nos são despejadas olhos abaixo a cada minuto e nos nossos interesses sempre mutantes.
Quando eu leio um único livro de que gosto, no entanto, eu curo isso. É como se, de repente, todos os outros deixassem de existir. É uma espécie de monogamia literária temporária. Que, naturalmente, desaparece até o próximo livro. Que até mesmo posso ler simultaneamente. Sou fiel ao que leio como era Vinicius de Moraes às suas mulheres.
Depois, o que vai além
Os livros na Biblioteca de Babel já estão todos lá. Talvez inclusive a história de sua vida ou todas as possíveis histórias de sua vida. Mas só um deles será essa que talvez seja a verdadeira história de sua vida.
E esse livro quem escreve pode ser muito bem uma figura mitológica que para mim, se não chega a ser assustadora, ao menos causa alguma apreensão.
O Velho da Montanha Errante é um ser da terra de Fantasia no livro A História Sem Fim, de Michael Ende. Ele escreve. Ele escreve tudo o que acontece. Tudo. O que é verdade ele escreve e o que ele escreve é verdade. Diz Atreiú, herói do livro:
- Os velhos de nossos acampamentos falam dele às crianças muito pequenas, quando elas são desobedientes ou más. Dizem que ele escreve em seu livro tudo o que as pessoas fazem ou deixam de fazer, tudo o que as pessoas pensam e sentem, e que essas histórias bonitas ou feias ficam lá escritas para sempre. (…) Os nossos velhos contam também que nunca é possível saber onde está a montanha do Velho; ele aparece sempre inesperadamente, ora num lado, ora noutro, e que só o acaso ou o destino permitem encontrá-lo.
Note que o Velho simplesmente escreve. Não há nada que decorra disso. Não há punição. Ele apenas escreve e nada além. Porque essa é a punição: ter seus atos registrados por aquilo que é ou que parece ser uma eternidade. Tal possibilidade é, por si só, aterradora a quem tem sensibilidade para perceber isso.
Assim também, sob certo ponto de vista, é a internet. Depois que uma informação boa ou má está nela – este texto, por exemplo, ou um vídeo -, ela não mais sairá. Ficará em cache ou se propagará viralmente por outros sites, por links e outras formas de direcionamento e armazenamento. Só o acaso, o destino ou os sistemas de busca permitem encontrá-la ou, com sorte, escondê-la.
Eu não ficaria admirado se o Velho da Montanha Errante fosse o próprio Jorge Luis Borges.
Serviço
Compare preços de livros de Jorge Luis Borges, de Michael Ende, de Shakespeare, de Jerry Seinfeld, sobre bibliotecas, internet e blogs.

Isso me lembra o caso da modelo/apresentadora, que tentou bloquear um famoso site de vídeos. Mesmo que o site saísse do ar (como, de fato, aconteceu),a informação já está na rede.
Só o tempo pode perdê-la. E, em contradição a isso, a apresentadora acabou por chamar mais atenção para si. E essa atenção foi negativa.
Nõ gostaria de saber da existência de um livro que registra o passado, o presente e o futuro. Seria chato não parecer ter o poder de decidir sobre a própria vida. Ou, mesmo que esse poder existisse, seria simulado, já que até a sensação de livre arbítrio estava prevista no livro.
Resposta: Hahaha. Nem sei a quem você pode estar se referindo.
Na verdade, o livro do Velho da Montanha Errante é escrito enquanto as ações decorrem. O que não deixa de ser enigmático: afinal, ele escreve na medida em que as ações decorrem ou ações decorrem na medida em que ele escreve?
Assim como o Thássius, tive a mesma impressão. Acho que algum velhinho esqueceu de contar essa história a uma sapeca menina que adorava ir na praia. =D
E sobre essa “grandeza da internet” aonde o que se consome é uma quantidade pífia se comparado ao resto de TODA a internet prefiro nem pensar, causa até uma sensação de impotência.
Resposta: o melhor é não pensar muito sobre isso mesmo. Por um lado é bom. Sempre haverá coisas novas para se ver…
O chato desses sites que livro é chato de ler no vídeo…
Resposta: Eu aposto que em cinco ou dez anos esse problema será tecnologicamente resolvido. As pessoas precisam de maneiras mais cômodas para ler na internet…
Nossa! Eu tinha esquecido do Velho da Montanha Errante. Gostei muito desse post.
O que aprendemos hoje?
1- O Velho da Montanha pode ser uma forma muito interessante de educar, vou usar com a minha sobrinha.
2- Está na hora de descobrir o que é o del.icio.us
Resposta: Sim, considerando que não há exatamente uma punição, creio que o Velho da Montanha Errante pode ser uma boa maneira de aprender. A criança não deixa de fazer algo porque está com medo de que alguma coisa lhe aconteça ou passa a fazer porque será recompensada. Em última instância não faz porque quer escrever bem a sua própria história ou aquilo que julga que seria escrever bem. Acho que vale pra gente também.
E quanto ao del.icio.us, não perca tempo. Para mim serve para tomar notas e para descobrir sites interessantes na parte de populares. Aliás, eu assino os feeds dos populares do del.icio.us… sempre há coisas legais…
Lermos sobre cegueira, bibliotecas, fogo e conhecimento nos remeterão a Jorge L. Borges, Humberto Eco, DNA (a estruturação da Biblioteca de Babel lembra muito a do DNA), Velho da Montanha, Ende, internet, finalmente um caleidoscópio de temas.
Gostaria de acrescentar mais um em nosso diálogo – vendo a internet como uma possibilidade infinita de diálogo – que nos aprimora naquele conhecimento, falso ou verdadeiro, mas que nos torna felizes. O tema é o da cegueira. E o ponto de vista é original:
“A cegueira é uma arma contra o tempo e o espaço. Nossa existência é uma única , imensa cegueira, exceção feita às poucas coisas que nos são transmitidas por nossos míseros sentidos, míseros por sua índole e por seu alcance. O princípio dominante do Cosmo é a cegueira. Ela permite a justaposição de coisas que seriam impossíveis se se vissem umas às outras. Possibilita a interseção do tempo onde este seria insuportável. Um esporo, por exemplo, nada mais é do que um pedacinho de vida que, até receber uma contra-ordem, está em estado de cegueira. Para escaparmos do tempo, que é contínuo, há um só meio: fragmentá-lo para obtermos as parcelas que dele conhecemos.”
O autor é o Elias Canetti. Grande e também um velho da Montanha, que passou a vida escrevendo e lendo. Escrevendo e lendo. Acompanhei toda a sua vida, graças ao hábito de escrever. Escrever. Não sei exatamente porque, mas fiquei muito próximo com o passar do tempo com suas conclusões. São sábias e pelo que percebi mais apropriadas para aquela releitura contínua que nos foi proposta por um dos notáveis Lessa.
Auto-de-fé é a obra em questão que termina assim:
“Que sorte que quase sempre saibamos pouca coisa! ”
As bibliotecas e a internet estão pegando fogo mesmo, e isso é mais sabido por Alexandria, mas no Oriente alguém já teve essa ilusão:
“No ano 213 a C., por ordem do imperador chinês Shi-Hoang-Ti, usurpador brutal que ousou arrogar-se os títulos de “ o Primeiro, o Sublime, o Divino”, foram queimados todos os livros existentes na China.”
Inútil, como sabemos agora também por você Alessandro.
Grato.
Resposta: que ótimo. Acho que acrescenta bastante! Queremos todos saber quando você vai nos brindar com seu próprio site… :-)