Em artigo anterior falei de um trecho de uma palestra de Borges, constante do livro Borges Oral, em que ele afirmava sobre o momento estético em que o livro deixa de ser um mero tijolo de papel - como acontece na maioria das bibliotecas particulares.
Eis a passagem:
Pegar num livro e abri-lo mantém a possibilidade do acontecimento estético. O que são as palavras encostadas umas à s outras num livro? O que são esses sÃmbolos mortos? Absolutamente nada. O que é um livro, se o não abrimos? É simplesmente um cubo de papel e de couro, com folhas; mas se o lemos acontece uma coisa extraordinária; creio que não é a mesma d cada vez que o fazemos.
Ele prossegue, num dos momentos mais interessantes:
Hamlet não é exatamente o Hamlet que Shakespeare concebeu no princÃpio do século XVII; (…) Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito. Por isso convém manter o culto do livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar de acordo coma as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, não para ser objeto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria.
Daà minha opinião de que livros não são para serem guardados, mas para constituÃrem moeda corrente, passar de mão em mão em maior ou menor velocidade, de acordo com o que nossas mãos se apegam a uns e a outros com maior ou menor avidez.
Na verdade, eu já pensava assim, antes de ler esse texto. Mas nós, meros mortais, precisamos dos sinais de panteões mais altos para corroborar mesmo nossas opiniões mais cheias de certezas.
Essa palestra é inteira interessante. Destaco outros pontos:
Emerson afirma que uma biblioteca é uma espécie de câmara mágica. Nesse gabinete estão sob o efeito de um encantamento os melhores espÃritos da humanidade, que esperam a nossa palavra para sair da sua mudez. Temos que abrir o livro, e eles então despertam. Diz que podemos contar com a companhia dos melhores homens que a humanidade produziu, mas que não os procuramos preferindo ler comentários, crÃticas, em vez de ler o que eles dizem.
Isso faz lembrar do perÃodo em que estive na faculdade. Quanto tempo perdido. Lia muitas coisas, na maioria das vezes sem prazer algum, pela mera possibilidade de acreditar que aquilo iria me garantir mais conhecimento. Eu não sabia que o verdadeiro conhecimento vem do contato, o mais próximo quanto possÃvel, com a coisa em si, no caso a obra do autor. As palavras já são suficientemente limitadas na transmissão de um conhecimento importante para que coloquemos mais palavras entre nós e esse conhecimento importante. Esqueça os comentaristas, esqueça os crÃticos e vá direto aos autores.
2 comentários até agora ↓
1 Thássius Veloso // 17 12 2006 às 22:18
Somente “ouvir falar” não deve bastar à quele que se interessa por um determinado assunto. Entrar em contato direto com este é a melhor forma de absorver as idéias do autor assim como foram concebidas. E isso vale para a maioria das mÃdias, e em especial aos livros.
2 Alessandro Martins. » Blog Archive » Literatura, uma forma de alegria // 8 1 2007 às 18:11
[...] A questão de a literatura ser uma forma de alegria é muito próxima à questão de ser muito melhor estar próximo ao autor que a seus comentaristas, crÃticos e resenhistas que já abordei com base nas palavras de Jorge Luis Borges. [...]
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