A qualidade da biblioteca depende do pedreiro
14 de dezembro de 2006 | Publicado na Categoria Livros e afins | 4 Comentários »Um dos problemas dos livros é que quando você os têm em excesso e não é exatamente organizado – meu caso – você pode perder algum, possivelmente aquele de que gostaria de citar certa passagem em um artigo, em meio aos tantos outros.
Foi o que aconteceu com o Borges Oral, que então líamos em voz alta eu e Júlia na cama.
É um livro com a transcrição de cinco palestras que o escritor argentino proferiu em uma universidade.
A questão é que para encontrá-lo não há Google que resolva. Mas ele deve reaparecer em breve.
Eu queria citar textualmente um trecho a que me referi em um artigo passado. Justamente o que fala sobre o livro fechado ser um tijolo feito de papel e cujas letras agrupadas lado a lado nada significam.
Ao abri-lo, no entanto, deixamos entrar em nossa casa, em nossa vida, aquelas palavras, aquela pessoa que as escreveu. Mais que isso. Na opinião de Borges, nos tornamos aquela pessoa. Ele diz, creio que não sem alguma emoção, que nos tornamos Shakespeare, nos tornamos Homero, nos tornamos, até, Jorge Luís Borges (embora, é claro, ele não se refira a si mesmo na tal palestra).
Ele segue, dizendo que um grande livro nunca é o mesmo que o da época em que foi escrito. Se lemos Hamlet, lemos toda a história da humanidade, do momento em que o bardo inglês escreveu a peça até aquele instante em que abrimos o livro.
Mas, como dizia, se o livro não é assim aberto, a magia não acontece e, de fato, ele se torna um tijolo.
E as bibliotecas são assim.
Algumas são feitas de tijolos e, outras, de janelas. Tudo depende do pedreiro.
Bibliotecas também tem muito a ver com fetiche. Para explicar, a idéia recorro à acepção sexual do termo, recurso já usado por outro autor em dois artigos (1 e 2).
Mas vou deixá-los com os textos de Alex Castro por enquanto (como dizia aquele sábio: como tal pessoa é inteligente, pois pensa exatamente como eu) e desenvolverei essa mesma idéia do livro como objeto de fetiche em outra ocasião.

As vezes nem eu me acho em meus pensamentos. Que inventem um “personal google” ia me ser util demais.
Ler em voz alta na cama é otimo, aquelas pequenas pausas são os melhores momentos da leitura.
Abraços Alê
Já eu não gosto de ler em voz alta. Isso acaba por prolongar demais a leitura e acabo por me desconcentrar no livro em si.
Um dia ainda terei minha própria biblioteca. Mas não apenas para esbanjá-la, mas sim por ter lido todos aqueles livros. O ruim deste país é que uma minoria tem o hábito de ler, até porque livro aqui é caro.
O dia que a maioria tiver condições e ler, seremos um povo mais culto, politizado, inteligente e sensato.
Parabéns, Alessandro, por (mais um) excelente post. Quando crescer quero escrever que nem você.
Aqui e ali ouço pessoas comentarem o suplício de se organizar os livros em casa. Sorte que esse mal ainda não me aflige. Mas, sinto dizer, sei que esse dia vai chegar para mim. É inevitável. E então encararei a arrumação frente a frente como um soldado obstinado do fronte.