Quem me conhece sabe que eu tenho uma certa implicância com livros. Na verdade, eu adoro livros. Aquilo com que implico é a postura que alguns possuidores de livros guardam em relação ao objeto. Grandes bibliotecas só como ostentação de nada valem.
Nas palavras de Jorge Luis Borges, este sim um grande amante de livros, um livro fechado é um paralelepípedo de papel que nada vale. Se ele não é aberto, não tem valor. A magia não acontece. E vejo na casa de muitas pessoas depósitos de paralelepípedos.
Também não caio no lugar comum de dizer que os livros acabarão. Não acabarão. Mas cada vez mais o relacionamento deles vai mudar. Talvez até algo neles mude no futuro.
Recentemente, li na biblioteca de Fausto Teixeira - uma biblioteca sempre de livros abertos -, o seguinte trecho no livro Dicionário de Borges, organizado por Carlos R. Stortini, com diversas passagens do escritor argentino organizadas em verbetes:
Antes, eu sentia certa repulsa pelo que naturalmente denominamos a Idade Média; agora me parece que era uma época melhor do que esta. No entanto, havia poucos livros, mas esses poucos eram muito lidos; careciam dessa maldição que é a imprensa; se um livro perdurava, era porque valia a pena ser copiado. Em contrapartida, tudo agora se imprime imediatamente e não podemos saber nada sobre seu valor. Isto me faz lembrar o que Schopenhauer dizia sobre não se ler nada que não tenha completado 50 anos, e depois, como é natural, se queixava de não se lerem seus livros que não tinham completado 50 anos (1974).
Isso me faz pensar que se não podemos controlar os livros que são impressos ou não, podemos controlar os livros que temos ou os livros que lemos.
Se, por um lado, livros de baixa qualidade são totalmente dispensáveis, os livros de real valor - seja lá o que o leitor individualmente chame de real valor - são no mais das vezes facilmente encontráveis.
Nessa linha de raciocínio, ninguém precisaria de uma biblioteca enorme. Pessoalmente, sou dos que preferem distribuir os próprios livros aos amigos com a promessa de que eles sejam passados adiante na devida ocasião. De que eles não ficarão fechados. As páginas fechadas de um livro podem ser comparadas a janelas lacradas de uma casa. A diferença é que, então, o problema não é a luz que não entra entre as folhas, mas a que não entra em nossa cabeça ou na de outra pessoa.
Fechar um livro permanentemente também pode ser equivalente a amordaçar um pouco um autor.
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8 comentários até agora ↓
1 Erwin // 11 12 2006 às 9:31
Devemos fazer uma ressalva para o Fausto. Aquele que está disposto a dar tudo o que tem e o que não tem, trocando pela sabedoria. E para tanto acumular livros significará um dia acumular conhecimento. Eles estão no meio termo entre o seu personagem (acumulador de tijolos) e o leitor esclarecido. São os bons cegos. Não ?
2 Alessandro Martins // 11 12 2006 às 10:08
Como eu disse, Erwin, a biblioteca dessa pessoa está sempre aberta. O que, francamente, é bem positivo! Abraços!
3 Fernanda // 11 12 2006 às 11:10
Ih, eu sou mais do tipo que você detesta. Não tenho o desejo de acumular, mas tenho um ciúme com meus livros que é como se eles tivessem sido escritos e costurados à mão. Evito até emprestar - com tanta nóia, é fácil eu acabar perdendo o amigo!
4 Alessandro Martins // 11 12 2006 às 11:16
Eu já sou do tipo que gostaria de ter rabiscado e anotado mais nos livros que já li. Mas eu não era tão esperto na época em que comecei a ler - e até torcia o nariz quando encontrava um livro com anotações - e agora não tenho a disciplina necessária para isso… bem. Nunca é tarde para começar.
5 Thássius Veloso // 11 12 2006 às 19:38
Eu nunca anotei nos livros que tenho. Tolice minha, pois ao fazê-las estaria adicionando minhas informações para posterior consulta. Sou como a Fernanda, ciumento até não poder mais. Se eu comprei um livro, não empresto nem divido a primeira leitura com ninguém. É meu e ninguém tasca.
Minha biblioteca é reduzida e nem tem tantos sucessos e clássicos, mas ainda assim refletem a minha história.
6 Alessandro Martins. » Blog Archive » A qualidade da biblioteca depende do pedreiro // 8 1 2007 às 18:31
[...] Eu queria citar textualmente um trecho a que me referi em um artigo passado. Justamente o que fala sobre o livro fechado ser um tijolo feito de papel e cujas letras agrupadas lado a lado nada significam. [...]
7 Rui de Lucca // 25 2 2007 às 20:42
Pois é, meu caro. Creio que o Borges tenha acertado quanto ao que disse sobre um mesmo livro ser lido mais de uma vez. Estamos numa época de avalanche editorial. Eis o importante trabalho que exercem os críticos literários nesse contexto.
Ademais, creio que amordaçar um autor às vezes se faz necessário uma vez que o densidade demográfica de escritores diletantes está extrapolando o normal.
É isso.
Abraço.
Resposta: É verdade, Rui. É interessante que deve fazer uns quatro ou cinco anos que eu li minha última crítica literária… acho que, para mim, as indicações de amigos funcionam melhor. . Talvez na ponta do outro fio esteja o dedo de algum crítico literário.
Abraços,
do Alessandro.
8 Evolucionismo aplicado à cultura, as York Sisters e a lista dos 500 melhores livros | Livros e afins // 7 11 2008 às 17:33
[...] O que diria Schopenhauer, que afirmava que não se deve ler livros publicados há menos de 50 anos? [...]
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