Borboletas na barriga

20 5 2006 por Alessandro Martins · 22 comentários

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  • Para Ana Eliza,
    que as tem

    Ana tinha borboletas na barriga. A curiosa condição gástrica lhe provocava algum incômodo. Sempre que por algum motivo emocional ela se agitava, as borboletas também se alvoroçavam. E, claro, desencadeavam reações fisiológicas terríveis nela, não bastasse o transtorno, seja lá qual fosse, pelo qual já passava. Cada uma batia suas asas para um lado diferente. Ana suava. Cada uma fazia cócegas em um canto distinto de seu estômago. Ana tremia. Cada uma falava uma língua - sim, elas falavam. Ana ficava tonta. Todas voejantes a um só tempo e Ana já não sabia o que fazer. Ter borboletas na barriga pode até mesmo tirar o sono.

    Difícil saber como esses bichos vão parar ali. Se eles nascem com a pessoa. Se eles estavam em semente em alguma fruta comida na infância. Se crescem por força da vontade de, não tendo asas por fora, ao menos tê-las por dentro. Ter borboletas na barriga é, assim, meio como a alma querendo voar, mas que dá apenas os primeiros passos nessa arte difícil de tirar os pés do chão. Todo mundo já chegou na beirada da varanda, olhou lá pra baixo. Todo mundo sabe como é. Antes de levitar, qualquer coisa desse tipo é impossível. A queda é mais fácil.

    Ana achava que ia cair. Mas as borboletas iam em outra direção que não a do solo. Ana seguia na condição de contrariedade involuntária, portanto.

    E são borboletas. Não mariposas, como poderia sugerir a escuridão que deve haver dentro de uma barriga. Na noite, as cores são desnecessárias.

    Mas dentro de gente, quando borboletas acordam, tem luz. Convêm os matizes.

    Mas dentro da gente, quando borboeltas acordam, tem música. Convêm a dança.

    Daí elas irem cada uma pra um lado no salão. Sua coreografia não é combinada.

    Borboletas na barriga, eis algo que nos escapa ao controle, mesmo estando presas. Não podemos, malvados, colocar alfinetes em suas asas.

    Breve interlúdio para que uma pessoa de um lugar muito quente saiba algo muito importante sobre dormir ao lado de uma pessoa que vive em um lugar muito frio:
    Entre os dois corpos adormecidos, é comum que se crie um vão por onde o ar gelado da noite entra sob as cobertas e contrasta com o calor da pele. Isso é muito, muito frio e congela ombros e pescoços. É preciso estar atento, muito atento para isso e sempre cobrir essas partes da pessoa amada.

    De volta às borboletas na barriga:
    Existe uma forma de controlar as borboletas na barriga. E não depende muito da pessoa. Ou elas sossegam com o tempo, aos poucos cansam dessa história toda e resolvem cochilar, ou descobre-se que o motivo de tamanho alvoroço - outra pessoa - também as tem.

    E, como se sabe, segundo as leis naturais, borboletas anulam borboletas e, de ambos os lados, elas cessam a bagunça.

    Cessam mas não deixam de existir.

    Conta-se que Ana foi encontrar a tal pessoa, a que lhe provocava as borboletas.

    Quando o viu sentiu algo como um soluço a subir pelo peito. Algo que não chegava a ser incômodo, mas que, achou, poderia lhe causar alguma vergonha.

    Não foi um soluço. Mas algo mais parecido com um suspiro.

    Abriu levemente a boca e: uma borboleta. Percorreu o curto espaço que ainda os separava.

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    22 comentários até agora ↓

    • 1 Carol // 20 5 2006 às 18:12

      Divertido e singelo ao mesmo tempo.Adorei!
      Abraços.

    • 2 Ana // 20 5 2006 às 21:12

      Perfeito… Você é um ótimo tradutor de borboletas!

      Obrigada Ale……

    • 3 Alicia // 20 5 2006 às 22:33

      :)))

    • 4 Fabiano // 21 5 2006 às 14:36

      O texto é, -como as borboletas- dificil, é complexo, uma tradução de alguma coisa que não se traduz… um segredo.

    • 5 Islane // 21 5 2006 às 21:42

      (como você conseguiu descobrir o segredo das borboletas e contar assim, desse jeito tão-tão?!) =]
      beijos, Alê.

    • 6 Deni // 22 5 2006 às 8:53

      Lindo. Lindo, lindo, lindo.

    • 7 Mema // 22 5 2006 às 23:13

      impressionante.

      como sempre, suspiro sem palavras.

      lindo, Alê.

    • 8 Mema // 22 5 2006 às 23:17

      e jah virou meu nick de msn….
      “tenho borboletas na barriga”

    • 9 Gabi // 22 5 2006 às 23:22

      não se deve deixar as borboletas irem embora jamais… quando elas se vão, o motivo deixa de ser motivo (perde a graça)

      lindo!

    • 10 Ana // 23 5 2006 às 1:56

      Não me canso de ler essa crônica

      só você mesmo para colocar em palavras o que sentia….. Obrigada Ale…
      tudo se encaixa perfeitamente…..

      lindo lindo lindo lindo…….

    • 11 Ainá // 23 5 2006 às 12:32

      Alê…
      Você consegue traduzir pessoas em palavras.
      “Se crescem por força da vontade de, não tendo asas por fora, ao menos tê-las por dentro.”
      Essa é a Ana!
      :)

      Um beijo muito grande!

    • 12 alysson assuncao // 23 5 2006 às 14:37

      brilhante, brilhante mesmo.

    • 13 Bárbara // 23 5 2006 às 16:50

      “Ter borboletas na barriga é, assim, meio como a alma querendo voar…”

      Lindo lindo Alessandro! :)
      (ter borboletas na barriga é um estado de espírito…pelo menos pra mim…)

      :*

    • 14 Carol Bueno // 23 5 2006 às 18:13

      Those butterflies!!! holy shit!!!ahahahah!

    • 15 thaíse. // 23 5 2006 às 21:36

      um dia, eu as tive.
      (mas elas desertaram diante do desamor… - tomara que voltem!)

    • 16 CAMI // 23 5 2006 às 22:46

      Amei mesmo… não tem nem o q duvidar…de vc…só mesmo borboletas!!! Beijossssss

    • 17 mema // 29 5 2006 às 23:33

      as minhas não voaram…
      acho que a acidez de meu estômago as liquidou.
      bom ou ruim? ainda n sei….

    • 18 Flávia // 6 6 2006 às 11:06

      Como sempre… Mais um texto lindo..

      Me deixou com vontade de borboletas na barriga.. rs

    • 19 marina garcia // 26 5 2008 às 8:34

      esse é especial!
      queria lê-lo novamente para te dizer: elas voltaram!!!!!!

    • 20 Alessandro Martins // 27 5 2008 às 8:00

      @marina garcia: fico feliz por você, Marina!

    • 21 Ketrin // 15 9 2008 às 15:20

      “borboletas anulam borboletas ”

      O importante é nunca deixar de senti-las!!
      Adorei!!!

    • 22 Alessandro Martins // 15 9 2008 às 21:25

      Sem dúvida… somos dotados dessa sensibilidade entomológica… rs… não podemos desperdiçá-la…

      Beijos do Ale.

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