Ao encontrar a foto, no fundo de uma das gavetas, assustou-se como se um perigo tivesse passado perto de seu corpo, como se quase tivesse sido atropelado, como se tivesse andado no escuro e, com as luzes acesas, houvesse descoberto que parara na beira do fosso, um segundo antes de dar o próximo passo, que o levaria às estacas lá embaixo.
Havia uma foto dela no fundo da gaveta. Uma foto velha. Tão velha que aquela que olhava indiferente para ele, como são os olhares nos três por quatro, nem era ela direito. Mas era. Pois ele lembrava do dia em que ela fizera aquela fotografia. Lembrava para que documento era. Lembrava até em que horário tinha ido ao estúdio. E de como arrumara o cabelo.
- As pessoas sempre ficam tão feias em fotos três por quatro. Não saio de lá enquanto não sair bem.
Foi o que ela disse, decidida - ela sempre era decidida - e feliz com as comodidades da fotografia digital. E prendeu os cabelos em um rabo de cavalo. A impressão que ele tinha, no verniz memória, era a de que realmente, não havia um fio sequer fora do lugar. A mecha negra formada por todos eles caía sobre uma blusa vermelha. Ele a observava da cama, com o sol começando a entrar pela janela. Ela sempre levantava antes que ele.
Com aquela imagem entre seus dedos, sei lá, como uma ficha de jogo, como um selo de uma carta, como o recorte minúsculo de uma revista, lembrou até do que pensara, do que lembrara naquela ocasião. A memória, às vezes, é uma caixinha dentro da outra.
Certa vez, quando criança, fora buscar as próprias fotos três por quatro em um estúdio perto de sua casa. Chegou ali junto com um senhor ao qual cedeu a vez. Ele entregou o canhoto e o fotógrafo foi procurar as fotografias em um pequeno arquivo onde todos aqueles pequenos rostos ficavam antes de irem para documentos, carteiras de namorados e namoradas, cadernos de recordações e até mesmo bocas de sapo. Naquele tempo ele acreditava nisso. Então, o senhor recebeu as fotografias, dentro daquele álbum minúsculo de plástico, sempre verde ou vermelho, como o nome do estúdio, telefone e endereço. Raramente verde ou branco. Abriu. Olhou a primeira fotografia. Depois olhou a segunda, como se pudesse ser diferente da anterior. Bufou. Olhou todas, alternando entre as imagens e a cara do fotógrafo que já esperava o pagamento. Guardou-as novamente no álbum. E, finalmente, atirou aquilo no balcão com força.
- Mas isso aí está uma merda, hein?
E saiu, sem mais palavra, sem pagar.
Ele, curioso, antes que o fotógrafo se recuperasse do choque, decidiu olhar aquilo e não conseguiu entender como aquele homem poderia ter detestado tanto algo que seria óbvio pois era o rosto dele o que se via estampado ali, um rosto nem bonito nem feio. Mas era o rosto exato. Não tinha a emoção, todas aquelas expressões dramáticas que há pouco vira, mas era. Qual teria sido a grande decepção daquele senhor? Talvez se visse diferente no espelho, talvez a câmara tivesse lhe dito uma verdade que não queria ouvir, talvez tivesse visto o rosto de um morto, talvez se achasse feio, mas quisesse culpar o mundo. Ele chegou a perguntar ao fotógrafo se poderia ficar com as três por quatro. Mas elas foram negadas, pois se o sujeito já estava descontente, imagine se ele descobrisse que elas estavam em posse de outra pessoa. Nem pensar.
- Tenho uma caixa cheia de três por quatro rejeitadas - disse ele depois de um suspiro - Não existe público mais crítico que os modelos de três por quatro.
De fato, não bastasse a crítica ao trabalho daquele que certamente tinha pretensões artísticas, há ainda a auto-crítica do retratado, fotografado do pior ângulo, do que exige mais coragem, do que todos tentam evitar. As pessoas só usam termos como frente a frente, olho no olho, cara a cara apenas nos momentos decisivos, quando eles não mais podem ser ludibriados. E assim estão todos os rostos nos três por quatro. E quando estão dentro da carteira, soltos ou em documentos, encaram frente a frente, olho no olho, cara a cara o nada. Que, no fim, é o que todo mundo tem que encarar. Aquelas caras secas, sem vida, sem emoção, esquecidas na caixa do fotógrafo eram testemunhas de segundos derradeiros. Jamais falarão.
Talvez aquele senhor que saiu raivoso do estúdio tenha percebido algo assim, mesmo sem saber. Ele viu mesmo um morto. Um morto de olhos abertos.
E era como se ele agora, surpreendido por aquela imagem escondida durante tanto tempo no fundo da gaveta, fosse olhado por uma morta, encontrada enquanto arrumava as coisas, seus próprios documentos. Uma morta de olhos abertos.
E o fazia perguntar se todas aquelas coisas que aconteceram tinham acontecido mesmo, se não tinha imaginado, sonhado ou delirado. Parecia mesmo sonho. Irreal. O fato de nunca mais tê-la encontrado depois da briga final dava essa impressão, a de que nada daquilo havia sido real, o cabelo preso, as palavras dela, o sol que entrava pela janela. Aquela pessoa talvez não tivesse passado por sua vida.
Então, observou com mais atenção. Apertou os olhos. E viu.
Um fio de cabelo fora do lugar. Era a parte mais viva daquele três por quatro.
A mulher daquela fotografia, hoje, está com o fotógrafo que a retratou. A vida tem coincidências que não se explicam. Por não serem coincidências. E por isso elas são relatadas sempre em parágrafos curtos. Para evitar as explicações inúteis.
Na sua memória não havia um fio de cabelo fora do lugar. A mecha negra caía sobre a blusa vermelha.
Ele jamais saberia se afinal aquele fio de cabelo, a parte mais viva da fotografia, saíra do lugar antes ou depois de ela chegar ao estúdio. A memória tira fotos, a imaginação pinta quadros. E em segundos esses quadros já o torturavam. Ele sequer podia atirá-los com raiva no balcão.
6 comentários até agora ↓
1 Islane // 21 4 2006 às 13:29
“A vida tem coincidências que não se explicam. Por não serem coincidências.”
(acredito que coincidências não existam… de verdade!)
Beijos, Alê.
2 julia // 21 4 2006 às 18:36
Ai…
3 andré sala // 22 4 2006 às 0:55
inspirado em amigo?
Se a memória tira fotos e a imaginação pinta quadros, não esqueça de me convidar para sua exposição! (é nessas horas que eu me pergunto se você já tem empresário).
4 William Hirayama // 24 4 2006 às 14:36
é por isso que eu não largo fotos em gavetas, mas em caixas… lacradas.
5 MARINA // 26 4 2006 às 22:54
fotos são sempre complicadas de serem revistas, sempre.
=*
6 Bel - http://deixoler.blogspot.com // 26 4 2006 às 23:03
Texto muito real, (no que diz respeito aos três por quatro) mas que mexe muito com o imaginário, (o sentimento do carinha). Mistura perfeita pra ficar gostoso de ler! Tks!!!
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